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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Efémera distorção




Fotografia: @SaraTrigo

Com a ponta dos dedos esfarelava, distraidamente, um scone de um castanho dourado perfeito, alheada da conversa que se desenrolava à sua frente. Passeou os olhos pouco observadores pelas paredes de madeira escura, quase rural, incapaz de apreciar a beleza do contraste pintado pelo conforto da sala aquecida pela lareira mesmo em frente ao mar inquieto, separados apenas por um reduzido lençol de areia e um vidro ligeiramente embaciado.
- Vais continuar a destruir o pobre scone ou vais comê-lo?
Mexeu-se no maple branco, apenas para dar sinal de que ouvira a pergunta, não querendo empenhar forças em dar uma resposta.
Fixou-se, finalmente, na colega que a olhava expectante, entre o divertido e o apreensivo.
- Que sentido é que isto faz? – perguntou lentamente. – Este cenário onde estamos neste preciso momento é utópico. Esta harmonia perfeita de materiais, de elementos, que se tocam apenas de raspão não existe. É uma ilusão da qual não fazemos parte, como o mar que, na verdade, só toca na parede ao meu lado porque os meus olhos captam a realidade sob essa perspetiva, de cuja beleza podemos desfrutar durante fugazes instantes.
- Tu fazes parte desta beleza, Catarina. Cada lugar, cada cenário conta uma história diferente de acordo com quem a protagoniza. Tu fazes parte desta. Tu, eu e a Carolina.
Começou a rir às gargalhadas:
- Até isso! Até nós as três somos demasiado perfeitas para a realidade. Olha para nós: Marina, Carolina e Catarina. Três. Nomes com a mesma terminação. Altas, magras, bonitas, bem-sucedidas. Se alguém nos fotografasse agora, éramos uma capa de uma revista qualquer de lifestyle. – Catarina elevara a voz gradualmente. Atirou com um pedaço de scone para o prato, espalhando migalhas na toalha. – E de que é que isso nos serve? – A pergunta saiu num guincho, acompanhada por um encolher de ombros.
As três mulheres não se conheciam bem, apesar de serem colegas de trabalho há já vários anos. Aquela era, aliás, a primeira vez em que se encontravam fora dele.
- Fui perfeita a vida toda – continuou Catarina, mirando as unhas cuidadosamente pintadas de castanho-escuro. – Tirei o curso que devia, porque era o que eu queria, mas também porque era o que os meus pais achavam indicado para mim. Segui os passos do meu pai e nunca tive de procurar trabalho, por ser tão boa no que fazia. Sempre! Nunca fiz uma única coisa errada, nunca tomei uma decisão que não devesse. Até o destino escolhe para mim o caminho correto – voltou a rir, desta vez sem qualquer vontade. – Imaginem que o meu marido me deixou, mas para não ser mãe solteira, sofri um aborto! O mundo decidiu que eu tenho de ser perfeita e o que eu sou é uma personagem de um cenário idílico, sem qualquer controlo daquilo que faço. Sou perfeita e isso não me leva a lado nenhum. Tal como vocês…
Instalou-se um silêncio pesado enquanto Catarina escondia a cara por detrás das mãos, ocultando as lágrimas que secou antes de voltar a encarar as colegas.
- Desculpem…
- Não, tens razão – atalhou Carolina. – Eu sou a mãe, esposa, irmã e filha perfeita. Vivo rodeada de gente mas sinto-me sozinha o tempo todo, porque o peso de todas as responsabilidades e da felicidade de toda a gente está em mim. Quem é que se encarrega da minha? Eu, só eu. Mas não tenho tempo para ela, porque estou demasiado ocupada com os outros. – Arregalou os olhos, sublinhando o que ia dizer. – Amo-os! Amo a minha família, a minha casa, o meu cão e o meu trabalho, mas não tenho nada que seja meu. Tive de desistir de correr quando engravidei, deixei de ter tempo para qualquer outro passatempo… esta é a primeira vez em vários anos que saio de casa sem ser com a família.
Catarina e Carolina entreolharam-se numa solidariedade silenciosa antes de se voltarem para Marina, como que lhe pedindo que falasse.
- Oh, agora é a minha vez? – brincou, desconfortável, a mais nova das três. – Eu não sou perfeita, não sou como vocês Ou melhor, a minha perfeição é só aparente. A minha magreza é resultado de um distúrbio alimentar que me acompanha desde a adolescência, quando andava no ballet, apesar de ter sido por causa disso que tive de desistir. Passo a vida sozinha porque sou escrava dele. Mesmo que consiga expor-me ao mundo e às pessoas tempo suficiente para começar uma relação, nenhuma sobrevive a isto. E apesar de ter todos os conhecimentos das consequências que posso vir a sofrer… e de que posso sofrer já sem sequer ter noção…, de saber a sua origem e a teoria de como acabar com isto... não consigo, porque no fundo não posso ser menos do que perfeita.
O peso das confissões caiu sobre o cenário de perfeição, tornando-o mais lúgubre, lançando sobre ele um véu negro, filtrando, assim, as tonalidades reconfortantes do outono.
- Quem é que nos impôs isto? – Carolina fez um gesto vago com a mão, encolhendo novamente os ombros. – Acho que fomos nós próprias…
Respondeu à sua própria pergunta, vocalizando, no entanto, aquilo que as outras pensavam.
Saíram para a humidade fria da tarde. Faziam juntas o luto do segredo – o individual, mas também o comum – cujo silêncio haviam quebrado. À medida que avançavam sem pressa ao longo do passadiço de madeira por entre as dunas e a vegetação acastanhada, através da qual o ano envelhecia e as estações quentes se desvaneciam, o véu de negritude ia caindo, como uma tira de seda deixada no canto de um sofá de pele.
Tinham alcançado e mantido ao longo dos anos aquilo que a maioria das pessoas almejava. Eram, cada uma, um exemplo da mulher ideal: belas profissionais de sucesso, independentes económica e emocionalmente, pilar de apoio de quem necessitasse – incluindo elas mesmas – e, claro, desempenhavam o papel irrepreensivelmente em cima de um elegante par de saltos altos a compor a toilette imaculada.
Chegaram ao final do passadiço, descalçaram-se e sentaram-se nas rochas com os pés enterrados na areia fria, a admirar a rebentação onde os pássaros pousavam e levantavam em voos incessantes e descoordenados. O vento fustigava-lhes os cabelos que se emaranhavam entre si, resultando num desalinho a que não estavam habituadas, ao mesmo tempo que sentiam a humidade salgada impregnar-se no algodão das calças e atacar a maquilhagem, esbatendo-a.
Os pensamentos vinham e iam ao sabor da movimentação do mar, confundindo-se. Confundindo-as com a sensação inédita de liberdade que, ali pousadas, num momento improvável, tentavam interiorizar.
Assistiram ao espetáculo do pôr-do-sol enevoado, sacudiram a areia dos pés, calçaram os sapatos, compuseram a maquilhagem com a ponta dos dedos, pentearam os cabelos e caminharam de regresso a casa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Dormência

Tenho tanto sono...
O relógio marca apenas 23h45, chegámos aqui nem há meia hora. Talvez devêssemos ter feito uma sesta antes de vir. Ainda vou adormecer aqui em pé.
Estou a transpirar, mas não posso ter calor. A noite está gelada, está toda a gente de casaco vestido, não posso ter calor. Mas não aguento, tenho de me despir.
Onde ponho o casaco agora? Não tenho força para o segurar nos braços... há um formigueiro que me entorpece, quase como uma anestesia geral. Será que fui drogada?
Abrir os olhos, respirar e manter a cabeça erguida. Respirar ar fresco.
A minha barriga! Dói tanto... Será que vou vomitar? Ou pior...! Como é que corro daqui para a casa de banho? Não há nenhum caminho livre, vou ter de me aguentar aqui. São só mais umas horas.
Preciso de me agarrar a qualquer coisa. A ele? Não, a ele não. Está a dançar e... a ele não. Às grades. Seguro-me às grades para não perder o equilíbrio.
- Estás bem? - ouço-o perguntar muito lá longe, mas sou ainda capaz de detetar a nota de desdém com que me fala.
Consigo apenas abanar a cabeça que me cai por entre os braços estendidos, as mãos fincadas nas grades para não cair ao chão. Tento erguê-la, mas sou novamente vencida pelo peso da minha própria cabeça. As costas desistiram e estou já completamente dobrada em direção ao chão. De alguma forma, as minhas mãos conseguem ajudar-me a debater-me com todo aquele entorpecimento.
Dou então conta de que não vejo nem ouço nada e começo a entrar em pânico. Se calhar vou desmaiar. Abro os olhos, que pousam nos pés dele: continuam a dançar.
Ergo novamente a cabeça, mas as minhas energias esvaíram-se do meu corpo numa questão de rápidos segundos e estou prestes a entrar em contacto com o chão.
Espero sentir uma mão dele a segurar-me, suplico-lhe mentalmente que me pegue ao colo e me liberte daquele sofrimento atroz que me aterroriza. Percebo que parou de dançar, inclina-se sobre mim sem me tocar e pergunta novamente:
- Que é que foi?
- Não sei! - consigo gritar, quase em pânico. A cabeça lateja e, ao mesmo tempo, parece completamente vazia. Os olhos rodopiam e estou cada vez mais zonza. Acho que balbucio alguma coisa, mas ele tornou a afastar-se e retomou a sua dança.
Estou prestes a desistir e a soltar as mãos das grades quando o segurança se aproxima dele e lhe pergunta:
- O que se passa?
Ouço-o responder:
- Não sei.
Sem parar de dançar.
O segurança puxa-me firme mas delicadamente os braços para cima até conseguir que os nossos olhos se encontrem. Pergunta-me se quero que me tire dali.
Olho para ele, egoisticamente dançarino, e vejo o esgar reprovador com que me olha.
Há um medo maior e crescente que se apodera de mim.
Aceno com a cabeça e sou levada em braços para longe da multidão alheia ao que ali se passa ou, provavelmente, assumindo que é mais um caso de intoxicação alcoólica.
Assim que os meus pés pisam o chão livre, a cabeça volta ao seu peso normal, recupero a visão e a audição e tremo de frio.
Bebo uns golos de água e encontro-o lá atrás, longe do palco e da confusão. Parece contrariado. Chateado? Não pode ser. Preocupado, se calhar.
Aproximo-me dele envergonhada, sem saber como reagir. Procuro-lhe a mão, mas retira-a, fingindo ir nesse preciso instante compor o cabelo.
- Que foi? - pergunto, por fim, tentando mostrar-lhe que já passou e que fiquei bem.
Não olha para mim e começa a andar. Acelero o passo para o acompanhar.
- Que foi?! - questiona quando, finalmente, para. - Foi que estás sempre tão preocupada com tudo, tão ansiosa, tão stressada que não consegues estar um bocadinho tranquila ao meu lado. E tinhas de escolher logo o momento do concerto para te dar um ataquinho de ansiedade. Perdemos um bom lugar!
Abro os olhos em alvo, estupefacta com tamanha estupidez.
- Achas que isto foi por tua causa?
- Tenho a certeza - atirou.
Eu não sei o que foi isto nem o que o motivou, mas aproveito a deixa dele:
- Se tens a certeza, talvez devesses então questionar as tuas atitudes.
Vira-se de frente para mim, mostrando um sorriso zangado:
- O mal está em ti. Está sempre em ti.
Vira-me as costas e fura a multidão.

Inspirando golfadas de ar fresco enquanto ouvia a música do concerto chegar até mim, não me apercebi logo de que as palavras que ele proferira se cravavam no meu corpo, perfurando-o tão nefastamente que se colaram à minha alma, cobrindo-a. Deixei-as entrar sem dar luta, porque fora ele que as dissera.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Instinto de sobrevivência

O mais triste não é quando alguém nos morre, deixando este mundo definitivamente e a nós cheios de lembranças que recordamos com carinho, com uma vontade imutável e inalcançável de as repetir.
Não, o mais triste é quando matamos pessoas que continuam vivas, a caminhar pelo mesmo mundo que nós, a ouvir as mesmas músicas, a ver as mesmas pessoas. Ainda que estejam mortas dentro de nós, tendo deixado apenas memórias amargas distorcidas pela mentira.
Sabemo-las vivas mas não nos preocupamos com elas. O amor deu lugar ao feio e destrutivo sentimento que é o ódio, a um desejo ardente de que o carma seja, de facto real… até que mesmo ele se evaporou, deixando no seu lugar, naquele pedestal cor-de-rosa com coraçõezinhos bordados a ouro, um vazio de indiferença. Mas por fim, até esse vazio se fechou e a indiferença alastrou-se do coração ao cérebro, à barriga (e às borboletas que por lá habitaram em tempos), às mãos que costumavam ser ávidas do toque especial, à boca que tantas frases bonitas pronunciou, tantos pedidos formulou e tantas declarações de amor teve de calar.
O luto é feito num silêncio desolado, sem corpo para enterrar nem cinzas para espalhar ao som de uma bela cantiga ou de frases de apreço e de homenagem. E sem lágrimas, porque a morte foi consciente, foi querida, foi necessária, depois de tantas lágrimas terem sido já derramadas em vão e em desespero.
O fantasma da pessoa que matámos irá, eventualmente, assombrar-nos. Num parque de estacionamento, no carro ao lado parado no trânsito, numa sala de cinema, num supermercado cheio de gente ou mesmo nas fotografias que foram tiradas, nas músicas antigas e nas que ainda irão ser lançadas, nas datas significativas. Nesse momento, ao contrário do que acontece com as pessoas que nos morreram, com quem gostaríamos de passar nem que fosse um só minuto mais, resta virar as costas e correr na direção contrária, para longe da assombração e dos calafrios de medo.
Porque se fazemos alguém morrer em nós, por insuportável que possa parecer essa tarefa… é porque precisamos de sobreviver.
E a tristeza é, então, a porta para a felicidade.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Castigo

Apontas o dedo, direito ao meu peito, à minha silhueta, e eu castigo-me.
Colocas-me na fila de trás, escondida dos olhos do público, em honra da vergonha. E eu castigo-me.
Despedes-te de mim, num adeus sem esforço, numa fácil distância incontornável, e eu castigo-me.
Olhas para mim e vês uma versão infantil, um riso demasiado fácil, um conjunto cómico. Uma filha que não tiveste de adotar, que te adotou como pai. E eu castigo-me.
Abraças-me a perfeição que enumeras, durante um tempo que já sei ser tão criteriosamente cronometrado, sempre à espera do alarme no final da contagem decrescente. E eu castigo-me, esforçando-me sempre em vão para adiar o som que te atira para longe de mim, para perto de outro alguém.
Deixas-me à espera das tuas palavras e da tua companhia e eu castigo-me de cada vez que sei de antemão que não chegam.
O vício, que vem e que vai, que é tão (aparentemente) facilmente controlável, dá-se sempre conta muito antes de mim dos erros que cometi, das faltas que tenho, dos passos dados ao lado. É ele que mostra, antes ainda do dedo erguido, dos olhares de vergonha, das despedidas, da condescendência, da efemeridade, das trocas, dos maus julgamentos e das esperas sem fim, que o caminho que parecia o correto é, na verdade, o caminho mais sinuoso.
Vejo nele o reflexo de mim que tu vês e que o espelho esconde. Giro sobre mim mesma vezes sem fim, num rodopio estonteante que me traz todas as versões de ti para diante dos meus olhos. Fecho-os sem cessar, tentando afastar-te pelo menos por agora, com sorte para sempre. Encosto-me, então, à parede fresca, passo as mãos pela cara, abro os olhos novamente e vejo no espelho um outro reflexo: uma mistura daquele que eu vejo com aqueles que tu vês.
Procuro o reflexo real, a imagem verdadeira, a que era eu antes de ti, de ti e de ti, mas não a encontro. Sei que nunca irei, mais, encontrá-la, porque naquele dia em que sucumbi pela primeira vez ao vício, tracei um destino irregular, de saltos que acho sempre serem mais forte do que as quedas mas que, na verdade, só as tornam mais dolorosas.
Revejo nos teus olhos aquilo que sou, aquilo que trago para mim e o que ofereço aos outros. Estendo a mão, peço-te ajuda, mas cospes-me e mandas-me resolver o que está errado dentro de mim.
Dou meia volta, obediente, e encontro conforto no meu refúgio. Isolada do mundo. Finalmente isolada de ti. Mas sempre controlada por ti.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Dicotomia

- Boa noite - despediu-se ele, deixando Clara do outro lado sozinha, mergulhada no silêncio das memórias de tudo aquilo que quase existira, calando um desejo de um convite para uma tarde passada juntos.
Tinha tanto para lhe contar, tantos conselhos para lhe pedir, tantas lágrimas para chorar no ombro dele, tantas saudades para matar, mas tivera de deixá-lo dormir, porque a vida dele continuava, tranquila e serena como era suposto, enquanto a sua ficava, volta e meia, pendurada na ideia dele.
Pousado no braço do sofá estava o livro que ele lhe dera e que começara a ler três ou quatro vezes, já, sem dar continuidade à leitura. Na televisão, o filme que estava a ver quando o ataque de saudades dele a acossou permanecia em pausa, à espera de ser posto novamente a rolar.
Mas apenas a breve conversa que tivera com ele se repetia na sua cabeça. De vez em quando dava-lhe silenciosamente seguimento, contando-lhe o que calara, perguntando-lhe o que não pudera perguntar. Não obtinha respostas nem recebia o esperado calor da presença dele, mesmo que apenas do outro lado de uma linha de comunicação.
Fechou os olhos lacrimejantes, recostou-se para trás e imaginou-o a dormir. Recordou-o, na verdade. Com detalhe.
A vida dele seguia o rumo que ele quisera traçar para ela, com o dinamismo que lhe conhecera, talvez até um pouco mais feliz, já que eliminara dela o elemento desestabilizante: aquela relação que nascera de repente, numa fase em que ele olhava para Clara com admiração, desejo e (seria mesmo?) amor, que crescera lentamente num remoinho de emoções e que culminara numa discussão seguida de outra, de outra e de mais outra.
A fase inicial de uma relação ignora as adversidades: guarda-as numa dimensão aparte, catalogando-as momentaneamente como irrelevantes, para que nada seja superior àquele sentimento em crescimento e de forma a que duas pessoas, mesmo que pertencendo a mundos opostos, se apaixonem.
Mas eis que o vermelho e o rosa da paixão são atenuados e abrem espaço para que a realidade tome lugar em todo o seu esplendor. Surgem, então, o amor e os atritos, lado a lado, numa disputa constante por atenção. Nalguns casos, vence o primeiro.
Não fora o seu...

Invejava-o. Adormecido, no aconchego da sua casa, finalmente devolvido à vida que escolhera, livre dos atritos. Livre de Clara.
Mal tapada por uma manta branca, sentindo o frio desconfortável da noite de inverno, soltou um riso sarcástico perante aquela situação: passara o dia inteiro a improvisar formas de acalmar a necessidade de procurar o homem responsável por aquela tristeza para que lhe desse a consolação de que precisava. Todavia, adiara até tarde demais, quando eram já horas indecentes para conversar com alguém, mas não até tarde demais para não obter qualquer resposta. E a parca resposta que obtivera desconcertara-a mais ainda, intensificara-lhe as saudades e deixara-a ali prostrada, tarde na noite, entregue ao seu próprio silêncio. E ao da única voz que a reconfortaria.
Dorida, transladou-se do sofá para a cama, onde o sono demorou a chegar, importunado pela necessidade urgente de pegar no telefone e lhe falar, recriminada por uma consciência berrante que a recomendava a entregar-se ao silêncio.

domingo, 13 de dezembro de 2015

A dor de saber

Olhei para ti, sabendo que as nossas horas estavam contadas. Quis pedir-te mais um beijo, mais um abraço, mas a minha voz estrangulou-se: se não davas era porque não querias.
Apertei-te um pouco, indiciando-te a minha necessidade de ti, do teu carinho, do teu tempo e do teu amor. Quis mais, só mais um pouquinho. Aquele pouquinho que me falta... que nos falta para não sermos eu e tu, mas para sermos nós. O nós que nunca quiseste que fôssemos, porque a ideia é mais aliciante do que a realidade de um nós que obriga a que abdiques de algumas coisas para a concretizarmos.
Não te cheguei. Nunca fui suficiente para ti, para os teus abraços, para o teu tempo, para as tuas cedências nem para o teu amor.
Fui sendo parte de algo, um bocadinho de qualquer coisa. Nunca fui a coisa. Por muito que te mostrasse a melhor versão de mim mesma, nunca fui suficiente.
Tentei olhar-te nos olhos, mas os meus estavam turvos da despedida interior que nos vou fazendo. Decidi em mim, tenho o mundo como minha testemunha.
Pousei as minhas mãos nos teus braços, fechando-as com a força de que era capaz. Seria uma das últimas vezes em que te tocaria, em que estaríamos só nós os dois ali, naquela sala lúgubre. A minha respiração pesada e acelerada contrastava com a tua tranquila e serena, tão alheio ao que se passava dentro de mim, diante de ti. Não querias saber. E eu queria não querer saber.
Despedi-me de ti com um até amanhã mentido. Foi o primeiro dos meus adeus. Teria alguns até ao adeus final, para me permitir ir habituando à ideia de que a minha vida não entra na tua, não se encontra com ela.
Não sou eu a desistir, a baixar os braços ou a ser fraca, mas não tenho forças para aguentar a dor que me paralisa de cada vez que aquela imagem se instala no meu cérebro, piscando furiosamente, sem parar, até me conduzir a uma loucura ciumenta de uma partilha indesejada.
Queria-te para mim, para seres meu e eu ser tua e, juntos, dominarmos um mundo incrível que seria aquele que construiríamos em par.
Tu querias-me numa outra medida, que eu nunca seria capaz de cumprir. O meu amor por ti é demasiado forte para me aguentar ao teu lado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Terrores noturnos

Tinham-se passado cerca de quatro meses desde a tarde que tudo mudara. Não no sentido convencional nem com um marco de mudança definido, mas fora como se os ventos tivessem começado, apenas porque sim, a soprar a seu favor.
Sentada no sofá, coberta por duas mantas quentes, via esses últimos meses passarem-lhe diante dos olhos em forma de fotografias e de pequenos vídeos relativamente acelerados, ao som de uma música romântica e bem-disposta, até que a sucessão de imagens travou a fundo e estacou naquela noite gelada que nem as iluminações natalícias atenuavam.
O coração esmurrava-lhe o peito com violência e o nó da angústia estrangulava-lhe a garganta. Queria falar, desabafar, gritar, mas perdera a voz. Nem chorar conseguia, ainda que sentisse que era essa a única forma de aliviar aquele aperto.
Tinha sido culpa sua: permitira-se acreditar e relaxara na certeza de que era para ser. Achara que daquela vez tinham tudo para resultar, para serem mais fortes do que os medos, mas dera-se conta de que os fantasmas não eram espectros do passado que surgiam de vez em quando para os atormentar. Tratavam-se, afinal, de monstros que partilhavam, no momento presente, a vida com ele, rasgando, por consequência, a dela em incontáveis fiapos sangrentos.
Não sabia dele. Procurava-o por todo o lado não chegando a contactá-lo para não o empurrar para mais longe ainda. Mentia. Não lhe falava para não ter de ouvir a verdade dolorosa de que não lhe era suficiente.
As duas da manhã chegaram e passaram numa sequência acrobática de olhos no telemóvel e na televisão, fingindo distrair-se. Tentando, desesperadamente, distrair-se.
As três da manhã apresentaram-se como uma luta estafante contra o sono. Não podia ir dormir sem saber que ele voltara para casa, que estava lá sozinho e que se lembrara de lhe mandar um beijo antes de dormir.
Às quatro da manhã soube que estava a fazer figura de parva e que era em vão que esperava, mas deixou que as cinco da manhã a encontrassem, ainda, numa sonolência não admitida, agarrando o telefone firmemente na mão direita, confirmando que tinha a internet e o som ligados.
Não era falha informática. Era falha humana. Dele ou dela, não sabia. Provavelmente dos dois, numa culpa muito diferente.
Deitou-se, soluçou forçando o choro que não a aliviou e adormeceu, por fim, com o telemóvel pousado na almofada.
Viu-os juntos; ouviu-lhe o riso de mulher despreocupada, segura de si e dele. Quis fugir e virar costas, mas a força magnética do nefasto proibido manteve-a de olhos pregados naquele par abraçado, que construía, diante de si, memórias que ficariam para sempre.
Acordou sobressaltada e dorida. Dormira umas quatro horas, não muito mais, e não descansara nada. Sentia-se sem forças nem vontade para encarar o dia que vivia para lá da persiana fechada, mas aterrorizava-a a ideia de adormecer e regressar àquela realidade do pesadelo.
Respirou o aroma do café até este estar demasiado frio para o conseguir beber. Aqueceu-o, sorveu um golo pouco satisfatório e deitou o resto no lava-loiças. No telemóvel ainda nada.
Fez duas torradas, mais para se distrair do que para matar a fome, e foi-se forçando a trinca-las diante de um desinteressante programa de televisão sobre qualquer coisa.
Não sabia quanto tempo mais aguentaria aquele equilíbrio, uma vez que já pendia mais para o lado da loucura do que para o da sanidade mental. O seu lado racional exigia-lhe que se deixasse de tretas, de sonhos e de imaginações ensandecidas e que assumisse uma postura menos submissa aos seus caprichos mimados, que lhe diziam que talvez devesse aguentar um bocadinho mais. Só até o convencer… só até ele se convencer de que não precisava de mais ninguém.
A meio da tarde, os seus olhos inchados e sonolentos leram uma mensagem dele, exatamente nos moldes que tinha imaginado. Nada sobre a noite anterior, nada sobre gostar dela ou ter sentido a sua falta. Só um vago interesse em saber se dormira bem e se queria lanchar com ele.
Dormi bem, sim. Mas talvez devesse ter dormido um pouco mais ;), respondeu na mesma mensagem em que aceitou o convite para lanchar.
Que se lixe, pensara. Afinal de contas, hoje é comigo que ele quer estar.
Assim que o encontrou, abraçou-o com força, pousou-lhe um demorado beijo nos lábios e perguntou-lhe, numa animação ensaiada, sem saber de que tipo de resposta estava à espera:
- Divertiste-te, ontem?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Efemeridade

Era cedo – os primeiros raios de sol começavam a iluminar a rua ainda fria e húmida pela noite de outono, para lá das persianas fechadas. Abriu os olhos para o escuro, sentindo-se quente e segura, com o braço dele pousado distraidamente por cima da sua barriga.
Sorriu e quis poder tirar uma fotografia para usar como prova para ele, que dizia sempre ser incapaz de abraçar alguém durante o sono. Em vez disso, voltou-se para ele muito devagar, para não o acordar, e devolveu-lhe o abraço. Esfregou levemente o nariz no pescoço dele, recebendo laivos do seu perfume. Apertou-o com força, mesmo consciente de que tal gesto poderia desfazer aquele emaranhado de corpos, a fim de marcar em si tal momento, tão raro, em que todo ele estava em contacto com ela, sem enunciar palavras que lhe afligissem o peito, sem que ela pudesse fazer perguntas cujas respostas não queria ouvir.
Fechou os olhos, sem sono, querendo absorver e perpetuar a sensação de pertencerem um ao outro. Era efémero, sabia disso. Não podia dedicar-se demasiado a esse pensamento, pois precisava de respirar, talvez até de voltar a dormir durante mais uma ou duas horas. No entanto, pressentia, quase ao ponto da certeza, que o seu tempo estava a chegar ao fim. Teriam mais duas semanas. Uma adicional, talvez, em que ela tentaria resolver as coisas, perceber porque se teria ele afastado, embora soubesse a resposta: passaria a ter os dias mais livres, teria menos tempo para ela.
Aquele oximoro doía-lhe na pele, na alma e na cabeça. Fizera tudo para ser suficiente para ele, conseguira-o, finalmente, quando as circunstâncias se haviam conjugado favoravelmente, mas aquela pausa tinha um final à vista e, com ela, levaria a sua suficiência.
Exagerara. Permitira-se deixar controlar pela espiral de pensamentos dois passos à frente, pelo que lhe faltava agora o ar, os olhos humedecidos ardiam-lhe e a cabeça latejava de medos. Não sabia como iria voltar à vida sem ele, sem o saber disponível e à sua espera.
Não ia conseguir voltar a dormir.
Apertou-o um pouco mais, inspirou fundo e murmurou muito baixinho, não fosse ele ouvir:
- Amo-te. És a melhor parte de mim e o melhor do meu dia. És a melhor visão do meu futuro… quem me dera ser a tua.
Libertou-se do peso dele, deslizando pela cama fora.
Desceu as escadas em direção à cozinha, por onde a claridade daquela manhã antecipava um dia frio, de horas perdidas no chão, em cima de um cobertor, em frente à lareira acesa.
Imaginava-se parte daquela casa, das rotinas, do sobe e desce típico da azáfama familiar. Sabia que encaixava ali, sentia-se em casa na casa que não era a sua, à qual conhecia os cantos e as manhas. Havia pequenas marcas suas, mesmo muito ténues, que lhe davam, de vez em quando, a ilusão de que um dia não voltaria a sair de lá.
Era ele o homem da sua vida, era aquela a vida que escolhera e escolheria para si, mas que lhe era vedada uma e outra vez, como se errasse perante as decisões do Universo e este fosse pegando nela para a colocar novamente no caminho do desígnio que era suposto cumprir.
Uma e outra e outra vez.
Sabendo que tinha os dias contados, ao mesmo tempo que reaprendia a viver sem ele precisava de – devia-se – aproveitar cada instante em que respiravam o mesmo ar, já que podia ser o derradeiro.
Deitou café em duas canecas, barrou manteiga em quatro torradas, cortou pedaços de fruta para uma taça grande e subiu as escadas de volta ao quarto, com o tabuleiro do pequeno-almoço nos braços. Ao transpor a porta, deu com ele sentado na cama a ler, iluminado pela luz que entrava pela persiana aberta até meio.
- Ia zangar-me contigo por não estares aqui – começou. – Mas depois senti o cheiro do café e, com a fome com que estou, achei melhor deixar-te alimentar-me.
Sentou-se ao lado dele na cama, feliz.
- Adoro alimentar-te.
Deixa-me alimentar-te para o resto da vida. Foi o pedido que calou, engolido num soluço.
Deixou as torradas quase intactas e o café bebido apenas até meio. Comer era uma perda de tempo, especialmente quando o estômago se fechara e não parecia ir colaborar tão cedo.
- Que se passa contigo? – perguntou ele.
- Nada – respondeu ela, num fio de voz. – Fazes-me feliz.
A ideia de desapareceres é que me destrói, pensou.
Ele puxou-a para si e, no quarto que um dia pensara vir a ser o seu, amaram-se. Ou assim lhe pareceu, sufocada pelo peso dele à sua volta, perdida no aroma do seu corpo, com o coração totalmente entregue a ele.
Não sabia como ia proteger-se, como ia lidar com a ausência dele, uma vez mais. Não depois do sonho, de várias utópicas semanas de romance quase real. Parecia real. Fora real.
Era fraca demais para o ver virar-lhe costas e virar-lhas também, não tinha nada a que se agarrar, que a mantivesse viva dia após dia, digna de si.

Duas semanas mais tarde, nua, no chão da sua casa de banho, teve uma decisão para tomar. A mais importante até então. Provavelmente a mais importante daí para a frente.
Por ironia, a pessoa que a ajudaria a resolver uma encruzilhada assim era precisamente aquela com quem não sabia se queria partilhar aquela indefinição. Não estava pronta, mas queria-o, mais do que qualquer outra coisa na vida.
Sentia-se fraca, com a cabeça vazia, incapaz de raciocinar e de desempenhar a mais básica das tarefas, como tomar duche. Mal disposta, arrastou-se para debaixo da água quente.
Aquela que previa vir a ser a decisão dele era-lhe inconcebível. Seria dolorosa demais em todos os sentidos, destrui-la-ia um pouco mais deixando-a sem nada, vazia dele, de si, de sonhos e de qualquer dignidade. Estava sozinha, escolheu.
Bateu-lhe à porta de casa com a desculpa de lá ter deixado um casaco. Longe do olhar dele, recolheu as poucas coisas que ali fora deixando, abraçou-o com a força de quem sabe ser a última vez e foi-se embora, deixando para trás um adeus, o seu grande amor e a vida que nunca lhe pertencera.
Esperava-a um futuro diferente daquele que alguma vez teria pedido. Não estaria, todavia, sozinha: se tudo corresse bem, em breve começaria uma nova vida com o fruto daquela relação. E nunca mais teria de despedir-se dele.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Minuciosa angústia

Mónica tinha a vida planeada ao detalhe numa perspetiva de médio e de longo prazo. Se lhe perguntassem – na verdade não era necessário, já que os seus planos eram do conhecimento geral do público – em que ponto estaria a sua vida dali a um ano e meio, mesmo ainda sem um anel no dedo, sabia que estaria a casar. Faria uma lua-de-mel de um mês pela América Central de mochila às costas e quando voltasse abriria um centro de estudos na cave de casa dos pais. Um ano e meio depois teria o primeiro filho. Dois anos mais tarde o segundo e, se tudo corresse bem, teria o terceiro passados outros dois anos. Não havia muito por onde falhar, pelo que vivia tranquilamente cada dia, com a certeza reconfortante de que as carruagens deslizavam sem sobressaltos pelos carris traçados, abraçando as rotinas tranquilas de uma vida calma e preenchida pelo trabalho, pelos amigos e pelo seu grande amor.
Tal como combinado, um ano e meio mais tarde disse o sim em frente a todas as pessoas importantes para si, envergando o vestido que idealizara quando tinha dez anos. Por razões que não são relevantes para o efeito, a lua-de-mel tivera de ser adiada para o ano seguinte, mas não tinha mal: seria a celebração ideal do primeiro ano de casamento.
Todavia, alguém que detalha com este pormenor a planificação da sua vida, deveria ter detetado o cheiro do descarrilamento iminente que chegou numa bela tarde de março, ainda durante aquele ano zero de casamento, quando o seu recém-marido lhe comunicou que tinha uma amante. Bem, tinha tido, porque acabara por perceber que era Mónica a mulher da sua vida.
- Tarde demais – atirara-lhe ela, fingindo todo o amor-próprio que não sentia naquele momento.
A lua-de-mel ficou definitivamente em stand-by e do futuro centro de estudos fez a sua casa. Sem ter tempo sequer para refletir, tinha o seu mundo a girar ininterruptamente sobre as suas costas, pesando todos os dias mais um pouco, ao ponto de lhe provocar dores insuportáveis. De repente já não havia carris, nem sequer um trilho ou um troço de caminho que pudesse seguir e a única rotina que passou a ter era a de todas as manhãs ir para o trabalho.
Para além disso, sentia-se perdida. Todos os dias desejava intensamente arranjar um trabalho fora daquele colégio opressivo e procurava forças – que tardavam a chegar – para ir viver sozinha. Estava perdida, fora de si, longe de si, sem qualquer elemento familiar da sua vida anterior, agora que não podia contar com os amigos que, já sendo originalmente do ex-marido, lhe tinham sido lealmente roubados.
Sentia-se sozinha, presa numa teia sufocante sem ninguém, incapaz de vislumbrar num ponto ao longe, por muito longínquo que fosse esse lugar, uma saída triunfante.
Sabia que passaria o resto da vida assim, impossibilitada de voltar a construir uma família. Teve essa certeza quando, na altura prevista, não teve o primeiro filho. Já só poderia tentar o segundo e o terceiro, mas com quem?
Delineou, então, um plano B: se dali a cinco anos continuasse a ser a sua única família, teria um filho por inseminação artificial. Nascera para ser mãe. Tinha a certeza de que o propósito da sua existência, a sua maior vocação, era amar e criar seres humanos desde o primeiro momento da sua vinda ao mundo para se tornarem pessoas felizes, capazes de grandes feitos e de trazer algo de bom à humanidade.
As lágrimas que vertia eram de desespero e angústia ante a possibilidade de o potencial de maternidade poder estar-lhe definitivamente vedado por uma má escolha no passado e, se fosse extremamente sincera consigo mesma, nem esse plano B a reconfortava: não só ainda faltava demasiado tempo, como queria poder partilhar a vida e todas as suas componentes com um homem que amasse e que a amasse. Tal como, um dia, tivera a possibilidade de descobrir.
Era por isso que não fazia qualquer esforço no sentido de repor uma rotina no seu dia-a-dia, para incompreensão da mãe e repúdio do pai: a rotina aprisioná-la-ia dentro de si mesma, no seu pequeno mundo vazio de gente, de caras novas, de embriões de algo seu.
Chegava ao final de cada dia esgotada, incapaz de segurar os olhos abertos e frustrada por se terem passado mais vinte e quatro horas de um esforço vão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mente-me

Se pudesse, escolhia a mentira. Sempre, enquanto aquela continuasse a ser a verdade que a atormentava, que lhe rasgava cada músculo, cada tendão, cada pedacinho de pele.
Cada pergunta que lhe dirigia fazia-se acompanhar de um olhar brilhante de esperança por uma nova verdade utópica. Aquela que não vinha. Não hoje. Talvez amanhã.
E quando a realidade lhe chegava brutalmente em forma de resposta, arrependia-se de não ter verbalizado o pedido:
- Por favor mente-me.
Mas ele não mentia. Na verdade, recordava-lhe, dia após dia, mesmo sem as perguntas súplices dela, uma realidade oposta àquela em que, desesperada por alguma paz de espírito, fazia por acreditar.
Passava um dia, passavam dois, passavam três e, a custo, a realidade opcional entranhava-se, materializava-se dentro e diante dela e tornava-se real. Até ao momento em que, por alguma razão, voltava a ouvi-lo pronunciar um qualquer nome alternativo ao daquela outra mulher cuja imagem esbatida era o suficiente para lhe provocar náuseas.
- Por favor mente-me - suplicava ela, todas as noites, com a cabeça pousada na almofada e os braços cruzados sobre si mesma, sabendo que ele não a ouviria. Mas esperando que, de alguma forma, ele lhe adivinhasse o pedido. E lho concedesse.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Insónia

Dentro de mim, um baque assustou-me para a noite ainda escura e fria. Cega, procurei o telemóvel para ver as horas: 4h12.
Virei-me para a esquerda, de frente para a parede, fechei os olhos e... nada. A cabeça pesava-me, os pensamentos rodopiavam numa catadupa tão desenfreada que não me permitia descortinar um só. Pensava em tudo, em nada e em tudo outra vez.
Tentei focar-me numa cascata - sabia que se o fizesse, conseguiria voltar a adormecer.
Aparentemente resultou, pois cerca de uma hora mais tarde voltei a acordar da mesma forma abrupta, numa preocupação assolapante que me fazia latejar a cabeça.
Rodei sobre mim uma vez mais, encontrei a cascata da minha imaginação, mas não surtiu o efeito desejado. Virei-me para o teto, com as mãos sobre o colo, procurei pensamentos tranquilos, mas o meu coração galopava com tanta força que quase doía.
Sentei-me com uma sensação de pânico assim que a imagem desfocada dos dois abraçados surgiu diante de mim. Abri e fechei os olhos várias vezes, querendo afastá-la o mais rapidamente possível, mas continuou presa a mim, tão imponente quanto um reclame luminoso numa rua apagada.
Fui à cozinha buscar um copo com água, mais para sentir o contraste do frio da casa com o calor quase exagerado da minha cama. Dei um pequeno golo que não me satisfez e voltei a deitar-me, coberta até às orelhas, desesperada por conseguir mais umas horas de sono.
Distingui os traços nítidos do sorriso dele dirigido a ela, numa mancha disforme feita por colagens do pouco que fui vendo dela. Vi-o abraçá-la, pousar-lhe um beijo na cara enquanto ela lhe contava algo que o fazia rir. 
Não quis ver mais nada, não quis seguir nem mais um segundo da noite dele longe de mim, mas o meu pensamento traidor fugiu-me e fluiu pelos caminhos que foi escolhendo, dono de si, consciente de que estava a faltar-me ao respeito.
Vencida pelo cansaço, enfiei-me debaixo de um chuveiro quente que deixei que me massajasse as costas durante longos minutos. Os meus olhos picavam, a cabeça continuava a latejar e aquela sucessão de imagens insuportáveis continuava a pairar diante de mim, numa espécie de trailer de tormento.
Não era por passar por aquela angústia do sono quase todas as noites que me habituava a viver com o peso de um cérebro que nunca desliga e de um coração que clama por misericórdia. Os meus dias eram quase ininterruptos, entrecortados apenas por ténues pausas incapazes de colmatar a minha exaustão.
Talvez estivesse na altura de dormir uma noite inteira e acordar com forças para fazer parte do mundo.

domingo, 11 de outubro de 2015

Despertar

Convidaste-me para jantar.
O meu coração disparou, senti o sangue aflorar-me às bochechas e a voz prendeu-se-me na garganta, incapaz de sair coerentemente, por entre golfadas de sons incompreensíveis que ficavam a pairar entre nós.
Franziste a testa, intrigado com a minha falta de resposta.
- Que se passa?
Insegura das minhas palavras, respondi-te:
- Já tenho outros planos...
- Quais? - perguntaste.
- Vou jantar...
- Com quem?
Desviei os meus olhos dos teus e respondi-te:
- Com o Vítor...
Deste um passo atrás, com a testa ainda mais franzida, e disseste-me:
- Não acho isso correto.
- Porquê? - perguntei eu, visivelmente perturbada pela incoerência da nossa relação.
Mas o teu sorriso rasgado, sabendo da novidade que me ias dar, completamente consciente da felicidade que as tuas palavras me iam fazer sentir, respondeste:
- Porque estamos juntos...
Antes de poder retribuir-te o sorriso, acordei com o ritmo do coração acelerado. Por dois breves segundos, questionei-me se teria sido uma recordação. E sorri.
Não estavas ali. Não tinha sido uma recordação.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Silêncio

Sentados num degrau a meio das escadas que dão acesso ao teu jardim das traseiras, vemos a luz do dia fugir paulatinamente de mais uma noite que se aproxima. Está frio, mas cheira bem: há uma mistura de terra e folhas molhadas com os aromas dos diversos jantares preparados nas casas vizinhas que se confundem à nossa volta.
As nossas mãos estão entrelaçadas: passo um dedo em movimentos circulares pelos nós dos teus, sentindo a suavidade da tua pele por debaixo da minha.
Fecho os olhos quando os teus lábios se passeiam pelo meu pescoço e pelos meus ombros, para apreciar este momento, evitando os pensamentos que se espalham para todo o lado, fugindo ao meu controlo. Não sabes, mas de cada vez que estou contigo agradeço em silêncio o facto de a vez anterior não ter sido a última. Sinto-me feliz ao teu lado, presa a ti por um nó mudo de qualquer coisa que não pedi.
Colocas um braço à volta da minha cintura, abro os olhos e observo-te diretamente. A tua testa, o teu nariz, os teus olhos, a tua boca e novamente os teus olhos. Sorrio. Estás aqui e eu também.
- O que foi esse sorriso? - perguntas-me.
Sorrio mais, mas fechando a boca, numa tentativa mal conseguida de o conter, e abano levemente a cabeça:
- Não foi nada. - A voz sai-me num guincho, como se fosse uma menina pequenina apanhada a fazer uma asneira.
Gosto de ti, mas não to posso dizer, não é? Não o dirás de volta e isso só iria desfazer a felicidade imensurável que sinto neste momento em que olhas para mim e eu te sinto meu, ainda que apenas por umas breves horas fugazes.
É a ti que quero... e a mais ninguém.
Beijo-te a bochecha, pouso a cabeça no teu braço e assim fico, de olhos fechados a inspirar o teu perfume, até deixares novamente de ser meu.

Bom dia

"Bom dia! Espero que tenhas dormido bem. Um beijo muito grande."

Sorriu, ainda acabrunhada pelo sono de que acabara de despertar, com o telemóvel meio caído entre os dedos e a almofada. Havia algo de especial numa mensagem de bons dias... Alguém algures no mundo, entre tanta gente, tantos afazeres, tanta corrida contra o relógio, se lembrara de si logo de manhã e tirara dois minutos para a fazer saber disso.
E queria que tivesse um bom dia.
Não reconhecia o número, era verdade. Tinha o péssimo hábito de não registar os números que os amigos lhe indicavam, costumando tentar decorar os cinco primeiros dígitos apenas, para os reconhecer quando lhe ligavam. De resto, era uma confusão.
Enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo frio, reuniu mentalmente as várias hipóteses. Em boa verdade, enumerou as pessoas que gostaria que lhe tivessem mandado uma mensagem de bons dias: a amiga com quem não falava há bastante tempo e de quem sentia umas saudades enormes; o irmão que emigrara, reduzindo, assim, o contacto diário que habitualmente mantinham; o amigo que, numa determinada altura da vida, a habituara às suas mensagens matinais bem dispostas, que acabara por largar com o tempo. No entanto, de qualquer um deles, conhecia o número de cor, muito para além dos cinco primeiros dígitos.
Sorriu intensamente ao passar com a toalha pelo cabelo molhado: havia, claro, o homem que trabalhava na empresa ao lado da sua, com quem metera conversa atabalhoadamente e que a intrigava todos os dias um bocadinho mais. Todos os dias passavam sete minutos, nem mais nem menos, de manhã, e nove minutos, nem mais nem menos, de tarde, juntos. Ele para tomar café, ela para fazer o enorme sacrifício de beber uma chávena de café até meio, antes de despejar o conteúdo sobejante no lavatório.
Aqueles dezasseis minutos diários, que se prolongavam há já quatro ou cinco meses, eram a razão porque começava cada dia com um entusiasmo maior em relação à véspera, motivada pelo enorme prazer que é conhecer e dar-se a conhecer a alguém novo.
E ele, aquele homem de cabelos negros e voz forte, pensara nela de manhã.

Respondeu-lhe, evitando a quantidade exagerada de smiles sorridentes que seria necessária para lhe transmitir a sua felicidade:
 "Bom dia! Dormi bem, mas acordei melhor ainda. Já nos vemos!"

Escovou os dentes, passando vigorosamente a escova pela língua - o sabor da pasta sempre ajudava a atenuar o amargo do café -, aplicou um pouco de batom e de perfume e saiu de casa, saltitando ao som de uma canção que se ouvia apenas dentro da sua cabeça.
Bom dia... Realmente, tudo corre melhor quando alguém deseja que o nosso dia seja bom.

O telefone voltou a tocar, avisando a chegada de uma mensagem. Sorrindo, abriu-a:
"Peço desculpa, foi engano."