segunda-feira, 5 de outubro de 2015
♥ segunda feira
It's hard to find a love through every shade of grey
So tired of the same
Never seems to change
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Sara vai ao Porto
A vida continua a mudar. Ontem pensava no quão igual a minha vida está ao que era no final de 2014, mas, ao mesmo tempo, no quanto mudou em apenas nove meses. Tenho mais, muito mais. Na verdade, tenho quase tudo o que quero, tenho sonhos a serem realizados e um dia a dia tão completo que o entusiasmo de sair da cama a cada novo dia é constante. Parece um cliché ou uma frase-chave para uma carta de apresentação, mas a verdade é que o(s) meu(s) trabalho(s) completa(m)-me e tudo é melhorado com a execução e o andamento de todos os projetos em que me envolvi ao longo deste ano. Alguns por necessidade, outros por impulso. E, uma vez mais, é verdade aquilo que dizem: às vezes as coisas não acontecem quando queremos, mas sim quando precisamos delas.
O Porto é, sem dúvida nenhuma, a minha cidade. É onde nasci, onde cresci e para onde sempre voltei de cada vez que fui para fora. E a Câmara desta minha cidade acreditou no meu projeto e quis divulgá-lo aqui, no portal de notícias do Porto.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Sara vai ao Porto Canal
Ontem, ao final da tarde, estreei-me na televisão. E não havia um canal mais adequado para esse momento do que o Porto Canal.
Passei o dia inteiro com uma ansiedade a esganar-me, a tentar desenvolver respostas para possíveis perguntas, a controlar o cabelo ao espelho (também é importante não estar num bad hair day), a imaginar os piores cenários possíveis (ou não fosse eu) e a concentrar-me no trabalho para acalmar um pouco os nervos.
Ao final da tarde entrei no edifício azul e fui logo muito bem recebida pela super bem disposta produtora do programa Territórios. Depois da maquilhagem que, detesto confessar, fez maravilhas por mim e durante cujo processo descobri uma nova técnica de aplicar rímel, fiz uma visita guiada pelas instalações - outra estreia.
Momentos antes de entrar, enquanto tentava descontrair e concentrar-me em tropeçar, cair ou dançar, voltei a cruza-me com o Júlio Magalhães, que já encontrara uma vez antes no lançamento de um livro, desta vez num contacto um pouco mais personalizado.
Ao contrário daquilo que temi, não só soube responder ao básico como ainda desenvolvi um pouco cada um dos temas que me foi questionado. Podia ter corrido melhor, há sempre alguma coisa, ou várias, que podem/devem ser corrigidas, mas o profissionalismo e a simpatia da apresentadora ajudaram e talvez tenham mesmo conseguido disfarçar as minhas falhas.
Não vi a entrevista, nem sequer ouvi mais do que alguns segundos, mas em geral fiquei bastante satisfeita com o seu desenrolar, mesmo que já me tenha rido bastante à conta dos comentários de quem assistiu.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Caixinha de música
Dormir não foi uma tarefa fácil nesta última noite. A ideia era descansar, para acordar tranquila e pronta para o dia de hoje. No entanto, estive bastante tempo às voltas na cama, a tentar estruturar, mudamente, frases coerentes, mas com a cabeça a fugir constantemente para pensamentos paralelos e divergentes.
A determinada altura não conseguia parar de constatar a imprevisibilidade do mundo, dos dias, quão rapidamente os acontecimentos mudam e algo de novo e diferente aparece.
Às vezes sinto que estou ainda numa das minhas divagações que me permitia sonhar, porque sabia que nunca iriam ser reais. Outras penso que se calhar deveria estar um bocadinho mais nervosa do que o que estou e, então, depressa passo para um estado de ansiedade que me fere, mesmo, a garganta.
O meu mundo está a mudar e eu não sei se estou a mudar com ele, mas sinto-me como uma bailarina numa caixa de música, apoiada sobre um só pé e a girar sobre sim mesmo, enquanto a melodia se prolongar, a ver tudo acontecer a uma velocidade estonteante.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Escritadoria
Toda a vida contei histórias. A minha irmã sabe, foi a minha primeira ouvinte, quando me inclinava sobre a cama dela ou a puxava para a minha, à noite, já tarde, na loucura das 21 ou 22 horas em dias de colégio, e lhe contava as aventuras da Tolinha e do Tolinho. Ainda os imagino exatamente como os imaginava há vinte anos atrás.
Quando aprendi a ler e a escrever passei a pôr no papel todas as ideias que tinha. A maioria eram histórias lamecho-românticas sem grande conteúdo, com elementos de suspense óbvio e só não lhes chapava fragmentos informativos da wikipedia porque, bem, na altura ela ainda não existia.
Tenho cadernos escritos até meio, recheados de personagens e de vidas que, provavelmente, poderiam ainda hoje originar uma macedónia interessante. Ando sempre com um mínimo de duas canetas na carteira e uma folha, de preferência um caderno, para escrever. Às vezes o telemóvel tem de servir.
Surgiram os blogs e achei que colmatariam a falta que me fazia não ter um público para quem escrever e que me desse o seufeedback, porque é para isso que serve a (minha) escrita: comunicar, estabelecer um contacto único com quem me lê.
No entanto, o meu ponto forte é a escrita e peco pela falta de esforço na divulgação dos meus textos.
Foi então que, num momento de epifania reveladora, percebi exatamente aquilo que me faltava: um grupo de escrita e de leitura dos escritos. Foi exatamente isso que procurei e foi exatamente isso que não encontrei.
Desta vez, porém, não baixei os braços e se aquilo que eu queria, de que eu precisava não existia, então tinha de ser eu a criá-lo. Atirei a ideia ao ar, na verdade expu-la no facebook, que é o meu grande aliado nesta jornada, e vi, com uma enorme surpresa e satisfação, que não estava sozinha nesta ideia louca de reunir estranhos com as suas histórias tão diferentes, apenas com o intuito de escrever e de partilhar as suas escritas.
Num cantinho do Costa Coffee da Baixa do Porto, ao sabor de uma chávena de café e de, claro, três Creamy Cooler de framboesa e chocolate branco, quatro meninas fizeram nascer a Escritadoria - a nossa fábrica de histórias.
Estamos a dar os primeiros passos e, por isso mesmo, os piquinhos no nariz intensificam-se ao ver um dos meus sonhos materializar-se entre as minhas mãos.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Destino
Tanta coisa que nos ficou por fazer, tantos momentos
que deixámos por viver, tantos sítios aonde não chegámos a ir juntos, tantos
planos que não serão cumpridos.
Lembro-me de uma manhã, deitada nos teus braços,
quando estudaste o espaço necessário em tua casa para as minhas coisas, e tive
a certeza errada de que um dia era lá que iria viver, contigo, com o que é meu,
o que é teu e o que seria nosso.
Imaginei os nossos filhos, a cor dos olhos deles, o
formato do cabelo, o sentido de humor e a altura. Não seriam muito altos,
sabes? Mas seriam bonitos. Seriam perfeitos e far-nos-iam felizes, numa casa
grande cheia de crianças, que cresceriam e trariam os amigos para jantar ou
passar a tarde e para quem eu cozinharia e tu passarias a ferro.
Adaptei-me ao teu espaço, às tuas pessoas, aos teus
hábitos e tu adaptaste-te a mim. Aprendemos e quisemos continuar a treinar esta
dança que é vivermos juntos, fazermos planos, idealizarmos seja o que for.
Houve um momento em que tivemos o mundo aos nossos
pés. Demos as mãos e pisámo-lo, porque podíamos dominá-lo: estávamos juntos,
conseguíamos ser invencíveis. E tudo se conjugava para que fôssemos bem-sucedidos
naquilo que nos cumpríamos a fazer.
Encaixamos um no outro como se eu te pertencesse a ti
e tu a mim. Como se tivéssemos sido postos neste mundo para nos conhecermos, para
nos complementarmos e para nos fazermos felizes.
Mas o mundo arrependeu-se, separou-nos, afastou-nos e
atirou-nos para destinos separados.
Agora resta-me aprender a viver sem uma parte de mim
e com a certeza que muitos não têm de que já encontrei a minha alma-gémea.quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Bom dia
Há um mundo lá fora, há. Um gorgolejar suspirado de uma cidade borbulhante, mergulhada no seu próprio torpor da meia noite. Ou da uma da manhã...
Cá dentro apenas se ouve o respirar eletrónico de um computador a implorar pelo merecido descanso, após um dia de trabalho mais longo do que o habitual.
Vai dormir, pede-lhe. Deixa-me em paz.
Só mais uma música, só mais um texto, só mais um parágrafo, só mais uma conversa.
Com as pernas enfiadas debaixo dos lençóis, os braços desnudos e as costas apoiadas numa pilha de almofadas mal montada, prolonga a atividade, a inebriação de uma vida que começa, ainda que a meio. Ou talvez fosse mesmo no princípio e até agora tenha vivido o prólogo.
Solta o cabelo, prende-o novamente. Abre uma nova janela, escreve o endereço de um site, lê-o, fecha-o, pisca os olhos.
Come uma sobremesa, bebe um pouco de leite frio e pensa que tem ainda de lavar os dentes. E de dormir, para amanhã acordar cedo e cumprir os objetivos laborais traçados.
Foi um banal dia bom... um dia bom banal... Foi um dia banal e bom, que pretende prolongar enquanto os olhos sobreviverem à luta com a dormência provocada pelo acumular de demasiadas horas de vigília.
Combate um pouco mais, até que desiste de esfregá-los e de, a custo, os reabrir.
É deixá-lo ir, dar-lhe espaço, e voltar a acordar para mais um dia banal. Para mais um dia bom.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Beco sem saída
O inverno no Porto pode ser rigoroso e impiedoso. Às sete horas da tarde,
debaixo da chuva fria que cortava o fim de dia escuro, parada no passeio,
protegida apenas pela gabardina que trazia vestida, uma jovem e atraente mulher
chorava desesperadamente. O rímel negro escorria-lhe pelo rosto e o cabelo,
liso e comprido, colava-se à testa, à boca, ao pescoço.
Acabava de sair do meu trabalho e descia a rua, descontraído, embrenhado
nos meus devaneios. Lentamente aproximava-me da mulher e ia-me apercebendo do
estado de espírito dela. A pena tomou conta de mim. A cara da senhora mal se
via, só o sendo possível por breves instantes, e mesmo assim, mal, só quando
ela limpava as lágrimas que se confundiam com as gotas de chuva que batiam como
lanças inimigas afiadas.
Com a curiosidade estampada no rosto, aproximei-me da infeliz chorosa e
toquei-lhe no ombro. Ela não se virou; foi como se não me tivesse sentido.
O dia oferecia tristeza a todos o que nele caminhavam, mas as lágrimas
eram o limite máximo de expressão dessa mágoa.
À frente dela estava um aglomerado de mirones que rodeava um corpo de
homem estendido nos paralelepípedos da estrada.
Por instantes, ela destapou o rosto para responder a uma das pessoas que
ligava para o 112, e pude ver a cara borratada dela, reconhecendo-a:
— Lara!— chamei com a minha voz grossa que ecoou na rua de um modo
inédito, mas ela nem olhou para mim.
Tentei pegar-lhe nas mãos, mas era como se fôssemos dois pólos positivos
que se repeliam mutuamente. Afaguei-lhe os cabelos com o olhar, aqueles cabelos
por que me apaixonara. Uma paixão que nunca fora retribuída, mas que se
conservara em amizade.
Atravessei aquela multidão e, ao ver o rapaz que jazia no chão e cujo
batimento da vida se lhe escapara, entendi a fatalidade da situação.
Estaquei com a respiração entrecortada.
Seria um espelho?
Era real o que via?
— Lara!— voltei a chamar, desesperado.
O movimento atrás de mim intensificou-se. O corpo era erguido numa maca
para dentro da ambulância do INEM
— Lara!
Sem olhar para mim, deu o braço ao médico, entrou no veículo, em direção
ao hospital, e eu não deixei de vê-la, a chorar uma paixão nunca assumida,
tornada impossível por obra da morte.
Chorava por ela e por mim...
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
A dor de sorrir
Pegar
no momento e guardá-lo não necessariamente para sempre, mas, pelo menos, até
cansar. Até não ser mais do que uma ténue sensação daquilo que foi, do que
aconteceu, do que extrapolou através dos poros de uma pele coberta por roupas
de inverno.
Não o
moldar, não o pintar, não o proteger com vidro ou plástico. Guardá-lo,
simplesmente. Pousá-lo em cima da lareira, no parapeito da janela exposta à
rua, na mesinha de cabeceira vagamente iluminada, e contemplá-lo todos os dias
até que a saudade dê lugar à habituação, a um encolher de ombros indiferente de
dias mais felizes, de outros momentos igualmente marcantes que substituam
aquele já gasto, em tempos tão inebriante.
Olhá-lo,
memorizá-lo, reconhecer-lhe cada pequeno traço, cada som. Saber de cor a música
que tocava, reproduzir sem apoio todas as tonalidades exteriores e interiores,
sentir-lhe a amargura e a doçura. Agarrá-lo até doer e deixá-lo, por fim,
escapar. Vê-lo, ao longe, a perder-se nas cinzas do passado e ser capaz de não
correr atrás dele, de não o chorar, de não lhe sentir a perda dolorosa.
Deixar
os dias passar, saborear-lhes o vagar, atrasar-lhes a pressa, porque o que veio
e o que chegou em breve será mais um chão pisado na estrada imensa de uma vida.
Conseguir,
por entre lágrimas, sorrir. Rir, se possível. Cantar baixo, alto, gritar o que
sair. Estender uma mão para trás, outra para a frente, mas deixar os pés presos
no agora que sustenta cada segundo
batido para lá do vidro do relógio de pêndulo e os olhos saltitantes para nada
perderem das horas irrequietas.
Preservar
o sorriso de criança inocente - feliz com a simplicidade -, maturado pela
aprendizagem da dureza e das conquistas. Um sorriso de dentes tratados,
preservado no mundo, crescido ao seu próprio ritmo. Mantê-lo com o orgulho
nunca ferido, porque o único sorriso no meio de lágrimas não está numa posição
de submissão nem de vergonha, mas assume o papel do poderoso, capaz de
vislumbrar para lá da névoa e de se manter irredutível quando o mais fácil é
esconder-se, adotar a outra face e juntar-se à multidão. Um sorriso de contágio
que mal só faz a quem o desdiz, a quem o vê sem conseguir reconstituí-lo.
E
distribuí-lo gratuitamente.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Concílio dos deuses
A campainha tocou e o pátio, iluminado pelos holofotes, encheu-se. Era de
manhã, mas o sol, preguiçoso, deixara-se ficar no aconchego da mãe-noite.
Janeiro chegara poucos dias antes, sem chuva, mas com frio e tristeza, porém,
essa manhã prometia aguaceiros. Era já tempo de o ano chorar as saudades do seu
antecessor, que acabava de partir, sereno.
Olhando para o céu branco que se tornava cinzento, ao mesmo tempo que a
música One Last Breath se fazia
ouvir, sobrepondo-se às conversas e gargalhadas, viu a chuva começar a cair
sobre o seu cabelo, o seu rosto e o seu corpo pouco agasalhado, e lembrou-se
dos seus anos de aluna naquela escola.
Havia já poucas caras conhecidas, contudo, o ambiente e os hábitos mantinham-se, como o
testemunho passado de geração em geração. Sozinha, debaixo da chuva nervosa,
quatro anos depois, lembrou-se dos tempos sem aulas que ali passara sempre com
as mesmas companhias, que agora já lá não estavam. Com poucos anos de
diferença, todos andavam na faculdade.
Não eram saudades aquilo que sentia: apenas a força da consciência de
que, três anos ali passados podiam ter acontecido de forma diferente. Postada
precisamente no local habitual - um ponto estratégico, em frente ao banco para
onde sempre olhava -, o seu peito foi dominado por um conjunto de sensações que
há muito não experimentava. Por vezes, mesmo sabendo que os seus olhos não pousariam
nele, não se cansava de procurar, na esperança de, no mínimo, poder
contemplá-lo.
Conhecera-o no segundo ano naquela escola e, pouco a pouco, foi
deixando, inconscientemente, que passasse de colega de turma ao sentido da sua
existência. O Cupido dos homens vivos e mortais, que não pertencia a ninguém
certo. Sem normas e, de certo modo, imprevisível, apoderou-se das pupilas dos
olhos dela, do coração dela e, acima de tudo, da consciência dela. Ela, a
encarnação da Psyché, embora numa réplica mais simplista, passou a sonhar, em
vez de viver.
Assumida perante todos, menos perante ele, a paixão foi sobrevivendo às
negações, às inexistências e às impossibilidades. O carácter inalcançável era,
então, concedido por todas as Vénus— Beleza e Entrega—, que se apaixonavam pela
personificação do Amor. Todas aquelas que, nem que fosse por uns momentos para
logo o desprezar, o tinham por inteiro. Todas aquelas que, sem sombra de
dúvida, não sabiam o que era o amor por ele. E ela, sabendo que ele conhecia
aquela sua devoção, embora não em toda a sua supremacia, aguardava, com e sem
esperança, um passo na direcção de qualquer coisa; um passo que, durante seis
anos, se tinha deixado ficar por sublimes provocações, sorrisos tímidos
comprometedores ou brincadeiras sem aparente significado.
Submetida a diversas provações como vê-lo escapar-se para, no momento em
que a capacidade de esquecimento surgia no fundo do seu ser feminino, voltar a
aproximar-se tão... condenantemente, não conseguia, fosse de
que modo fosse, permitir que a impossibilidade matasse esse amor.
— Só quero ouvir sim ou não. A diferença é que não ouço nada. Apenas
recebo uns anda cá! e logo depois, afasta-te, pertenço a outra. Nada mais!
— Tens de perguntar-lhe tu: Sim ou não?. Nunca lhe pediste resposta
nenhuma. Ou então...— era a maioria das respostas— não perguntes. Age!
O grande medo dela sempre tinha sido arriscar-se a ouvir uma negação face
a qualquer coisa que tivesse feito. Era como se, ao guardar para si tudo o que
sentia, esperando por ele, fosse mais aceitável a recusa.
Aquela insegura Psyché abandonada viveu dois anos completos com a ciência
de que se aquele que não era, de modo algum, o ideal para si, era o absoluto
dos seus desejos. E foi com essa perspetiva que terminou o secundário e entrou
no mundo universitário, afastando-se de toda e qualquer referência à escola
secundária, com excepção das suas cinco ninfas. Afastando-se dos bancos, do
refeitório, das salas de aulas, dos colegas de turma e da sua obsessão nefasta.
Sabia que ele, Pedro, deveria ter entrado numa faculdade privada,
provavelmente de Direito, mas pouco mais soube durante quase quatro anos.
Raramente Francisca conseguia começar uma conversa com ele, talvez devido à
vida social atarefada que ele levava sempre, ou talvez devido ao desprezo que
insistia em oferecer-lhe. Não foi, todavia, por isso que Francisca se deixou
abater ou tornar-se infeliz. Sabia, sim, que uma parte de si não estava
completa e que não havia Mercúrio nenhum que conseguisse preenchê-la. Essa
parte de si, com nome, mas sem subsistência, ficara numa vida passada: na etapa
pré-universitária, quando aprendera a auto conhecer-se.
Nesse momento particular, com a chuva a dançar ao sabor da música, todas
as memórias vieram ao seu pensamento e, uma vez mais, tal como acontecia
frequentemente, a imagem de Pedro surgiu mesmo à sua frente. Fechou os olhos.
Não podia continuar agarrada ao passado. Tinha vinte e um anos. Não era mais a
mesma rapariguinha de dezasseis anos que sorria ante a presença daquele que
mais queria.
Ou seria?
Abriu os olhos, ouvindo as últimas notas da guitarra. Sorriu timidamente
ao imaginar como estariam a interpretar os seus movimentos, se é que alguém lhe
prestava atenção e, com as fotocópias de que precisava já guardadas na mochila,
saiu debaixo da chuva e dirigiu-se à saída da escola. Com muita certeza, não
voltaria a entrar ali tão cedo.
Ao mesmo tempo que pisava o chão de pedra sujo do último degrau, sentiu o
seu cabelo encaracolar um pouco mais e aumentar de comprimento; teve a sensação
de ficar poucos centímetros mais baixa; a sua mini-saia transformou-se num par
de jeans claros e as camisolas numa t-shirt escura e um casaco de malha com
um blusão pequeno, por cima. Algures, por debaixo do arco-íris, de universitária
passou a adolescente e foi como se os quatro últimos anos nunca tivessem
passado por ela. À sua frente, igual ao que sempre fora, Pedro estacara ao
vê-la. Mesmo sem ter falado com ele, sabia, pela expressão dos seus olhos e
pela forma como os seus lábios se uniam quando fechava a boca, que continuava o
mesmo. Nada mudara nele.
Esta Psyché, agora com frio devido à inadequação das suas roupas, tremia
de cima a baixo. Em contrapartida, aquele Cupido, o deus do amor, transpirava a
calma habitual, a familiaridade com todas as situações com que pudesse
deparar-se. Olhou-o sob todas as dimensões e acabou por descansar os olhos nos
dele. Deu-se conta de que ambos sorriam.
— Olha ela!— exclamou ele, naquela voz inconfundível, que exprimia mais
do que a maioria dos ouvintes conseguia detectar.
— Olha tu...— respondeu ela, numa voz sorridente, ainda abalada pela
surpresa.— Tudo bem?— À partida, sabia que era um mero acaso, um encontro-
infeliz, talvez?- que acabaria numa questão de segundos e que, como habitualmente,
seria varrido do pensamento dele ainda antes de ela ter dito adeus. Ela, pelo
contrário, ficaria a pensar durante dias e, se calhar, meses, no que poderia
ter acontecido nessa tarde chuvosa, à porta da antiga escola. Não seria a
primeira vez.
— Estava bem— respondeu ele. Ao ver a expressão dela carregar-se,
continuou:— Mas agora que te vi, estou melhor!— O sorriso da pequena Psyché,
que se sentia diminuída na presença tão imponente da divindade que amava,
rasgou-se sem que ela se apercebesse disso.— Que vieste fazer? Não te tenho
visto por aqui...
— Ah... pois... não costumo vir. Já não vinha cá há uns anos...
— Bem me parecia — o à-vontade dele contrastava com a timidez crescente
dela. — Venho cá às vezes à sexta para estar com o pessoal. Como nunca te
encontrei...
Francisca não tinha nada contra a escola. Aliás, tinha adorado os anos em
que lá passara, por ter sido a fase em que se tornou mulher. Mas temia entrar
ali e reviver mentalmente cada momento, cada sensação, boa e má, que lá vivera
realmente. Tal como tinha acabado de acontecer. Só não esperava que na primeira
vez que lá fosse, apenas para arranjar umas fotocópias de uns testes de Latim,
tudo se tornasse tão real.
— Hum... vim só mesmo buscar umas coisas...
Pedro sentou-se no chão, o que permitiu a Francisca observá-lo, sem que
ele se desse conta. Fumava descontraído. «Será que nada mudou, mesmo? Afinal,
passou algum tempo...», questionou-se ela. Mesmo quando estava rodeado de
pessoas, Pedro fumava a olhar para lado nenhum em especial; para algum lugar
bem longe que só ele conhecia.
— Tens pressa?— perguntou ele, olhando para ela e, logo de seguida, para
o mesmo ponto que focava absortamente.
— Não propriamente. Vou almoçar só daqui a umas horas e, para já, não
está ninguém em...
— Que tal fazeres-me aqui um bocadinho de companhia?— interrompeu ele.
Sem responder, Francisca sentou-se ao lado dele, em silêncio. Como
sempre, à espera de que ele falasse.
Cupido e Psyché. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão afastados. Unidos pelo
amor, afastados pela indiferença.
Francisca tinha a capacidade que algumas semi-deusas apaixonadas como ela
não tinham, que era a de conversar com o seu ser supremo. Mantinha uma conversa
estável com ele, apenas receando desinteressar-lhe ainda mais. Contudo, dessa
vez o desenrolar da conversa foi ainda mais natural, possivelmente devido à
fortificação da distância e da separação, erguida pelos anos que haviam
passado. Durante duas horas, para além do relatório do que se passara até
àquela hora, desde o último dia em que se tinham visto, falaram tudo o que não
tinham falado anteriormente. De superficial e cómico, o diálogo entre os dois
passou a sentimental. Apenas os sentimentos opostos que os uniam ficaram de
parte.
«Que mais podes tu pedir, para além de alguém que, durante seis anos
resistiu a todas as provocações, repudiou todas e quaisquer declarações, porque
não pensava senão em ti?», pensava ela à saída do portão da escola, depois de
se terem despedido. «Aconteça o que acontecer, faças o que fizeres, nunca vais
encontrar ninguém que te ame como eu. Nem parecido!»
Uma vez mais, a revolta e a angústia de perder aquilo que deveria ser seu
sobrepuseram-se a qualquer outro sentimento.
Muito suave, mas firmemente, a sua mão foi agarrada por uma outra, que só
uma vez tinha tocado a sua. O seu coração continuava a bater, sem que ela
soubesse como nem porquê. Tinha a sensação de estar vazia, de não ser nada mais
do que um ser físico, com coração. Parada no passeio, muito lentamente virou-se
para trás e olhou-o, a sorrir. Ambos sorriam.
Um beijo suave e sincero há muito esperado; durante tantos anos guardado.
Sem palavras nem explicações, o gesto simbólico não carecia de nada mais.
Apenas de Francisca e de Pedro e do que ambos tinham para dar.
Pedro e Francisca. Cupido e Psyché. Finalmente juntos; finalmente no
Olimpo Luminoso...
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