quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Silêncio

Sentados num degrau a meio das escadas que dão acesso ao teu jardim das traseiras, vemos a luz do dia fugir paulatinamente de mais uma noite que se aproxima. Está frio, mas cheira bem: há uma mistura de terra e folhas molhadas com os aromas dos diversos jantares preparados nas casas vizinhas que se confundem à nossa volta.
As nossas mãos estão entrelaçadas: passo um dedo em movimentos circulares pelos nós dos teus, sentindo a suavidade da tua pele por debaixo da minha.
Fecho os olhos quando os teus lábios se passeiam pelo meu pescoço e pelos meus ombros, para apreciar este momento, evitando os pensamentos que se espalham para todo o lado, fugindo ao meu controlo. Não sabes, mas de cada vez que estou contigo agradeço em silêncio o facto de a vez anterior não ter sido a última. Sinto-me feliz ao teu lado, presa a ti por um nó mudo de qualquer coisa que não pedi.
Colocas um braço à volta da minha cintura, abro os olhos e observo-te diretamente. A tua testa, o teu nariz, os teus olhos, a tua boca e novamente os teus olhos. Sorrio. Estás aqui e eu também.
- O que foi esse sorriso? - perguntas-me.
Sorrio mais, mas fechando a boca, numa tentativa mal conseguida de o conter, e abano levemente a cabeça:
- Não foi nada. - A voz sai-me num guincho, como se fosse uma menina pequenina apanhada a fazer uma asneira.
Gosto de ti, mas não to posso dizer, não é? Não o dirás de volta e isso só iria desfazer a felicidade imensurável que sinto neste momento em que olhas para mim e eu te sinto meu, ainda que apenas por umas breves horas fugazes.
É a ti que quero... e a mais ninguém.
Beijo-te a bochecha, pouso a cabeça no teu braço e assim fico, de olhos fechados a inspirar o teu perfume, até deixares novamente de ser meu.

Bom dia

"Bom dia! Espero que tenhas dormido bem. Um beijo muito grande."

Sorriu, ainda acabrunhada pelo sono de que acabara de despertar, com o telemóvel meio caído entre os dedos e a almofada. Havia algo de especial numa mensagem de bons dias... Alguém algures no mundo, entre tanta gente, tantos afazeres, tanta corrida contra o relógio, se lembrara de si logo de manhã e tirara dois minutos para a fazer saber disso.
E queria que tivesse um bom dia.
Não reconhecia o número, era verdade. Tinha o péssimo hábito de não registar os números que os amigos lhe indicavam, costumando tentar decorar os cinco primeiros dígitos apenas, para os reconhecer quando lhe ligavam. De resto, era uma confusão.
Enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo frio, reuniu mentalmente as várias hipóteses. Em boa verdade, enumerou as pessoas que gostaria que lhe tivessem mandado uma mensagem de bons dias: a amiga com quem não falava há bastante tempo e de quem sentia umas saudades enormes; o irmão que emigrara, reduzindo, assim, o contacto diário que habitualmente mantinham; o amigo que, numa determinada altura da vida, a habituara às suas mensagens matinais bem dispostas, que acabara por largar com o tempo. No entanto, de qualquer um deles, conhecia o número de cor, muito para além dos cinco primeiros dígitos.
Sorriu intensamente ao passar com a toalha pelo cabelo molhado: havia, claro, o homem que trabalhava na empresa ao lado da sua, com quem metera conversa atabalhoadamente e que a intrigava todos os dias um bocadinho mais. Todos os dias passavam sete minutos, nem mais nem menos, de manhã, e nove minutos, nem mais nem menos, de tarde, juntos. Ele para tomar café, ela para fazer o enorme sacrifício de beber uma chávena de café até meio, antes de despejar o conteúdo sobejante no lavatório.
Aqueles dezasseis minutos diários, que se prolongavam há já quatro ou cinco meses, eram a razão porque começava cada dia com um entusiasmo maior em relação à véspera, motivada pelo enorme prazer que é conhecer e dar-se a conhecer a alguém novo.
E ele, aquele homem de cabelos negros e voz forte, pensara nela de manhã.

Respondeu-lhe, evitando a quantidade exagerada de smiles sorridentes que seria necessária para lhe transmitir a sua felicidade:
 "Bom dia! Dormi bem, mas acordei melhor ainda. Já nos vemos!"

Escovou os dentes, passando vigorosamente a escova pela língua - o sabor da pasta sempre ajudava a atenuar o amargo do café -, aplicou um pouco de batom e de perfume e saiu de casa, saltitando ao som de uma canção que se ouvia apenas dentro da sua cabeça.
Bom dia... Realmente, tudo corre melhor quando alguém deseja que o nosso dia seja bom.

O telefone voltou a tocar, avisando a chegada de uma mensagem. Sorrindo, abriu-a:
"Peço desculpa, foi engano."

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Regresso à escola

No domingo, ao fim de 10 anos (dez!) voltei à escola em que passei os três anos de secundário a sentir-me uma outsider (talvez seja mesmo essa a minha condição geral). Nunca mais lá voltei a entrar, ainda que estivesse curiosa para saber como tinha ficado depois das obras, mas os horários não mo tinham permitido e, honestamente falando, a vontade não era demasiado forte para isso.
Até que chegaram as eleições, a escola esteve aberta no fim de semana e voltei a entrar, desta vez pela porta da frente, aquela que estava vedada aos alunos, que tinham de entrar pela estreitíssima porta lateral.
Não perscrutei a escola toda. Na verdade, passeei por uma pequena parte, apenas, mas o suficiente para ver que aquela é, sem dúvida, uma escola do século XXI, com bom aspeto e, arrisco dizer, acolhedora. O corredor de acesso aos edifícios e às salas de aula, totalmente envidraçado, já não deve ficar alagado em dias de chuva, o que permite, também, que haja um bar enorme e colorido lá no meio. Em frente, o recreio com campos de jogos está com as condições necessárias para ser utilizado sem que seja preciso verificar o boletim de vacinas, como medida de prevenção.
Consegui ver uma ou duas salas por dentro, mas apenas as da área de ciências que, embora incluísse uma cuja parede é um aquário, não fazem parte do meu espectro de recordações.
Não fiquei muito nostálgica, não foi como voltar a casa ou a um momento especial do passado. Ainda assim, foi impossível não reparar, logo, que o cantinho junto à máquina de bebidas onde a minha grande paixão dessa altura me deu um beijo na testa, depois de sair aterrorizada de mais uma aula demoníaca com uma bruxa - ali mesmo à saída para a porta lateral, em cujo muro de pedra ele se sentava a fumar - já não é um cantinho resguardado. E a máquina de bebidas desapareceu, com o seu vermelho desbotado de tantos anos de gasto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

♥ segunda feira





It's hard to find a love through every shade of grey
So tired of the same
Never seems to change

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Sara vai ao Porto

A vida continua a mudar. Ontem pensava no quão igual a minha vida está ao que era no final de 2014, mas, ao mesmo tempo, no quanto mudou em apenas nove meses. Tenho mais, muito mais. Na verdade, tenho quase tudo o que quero, tenho sonhos a serem realizados e um dia a dia tão completo que o entusiasmo de sair da cama a cada novo dia é constante. Parece um cliché ou uma frase-chave para uma carta de apresentação, mas a verdade é que o(s) meu(s) trabalho(s) completa(m)-me e tudo é melhorado com a execução e o andamento de todos os projetos em que me envolvi ao longo deste ano. Alguns por necessidade, outros por impulso. E, uma vez mais, é verdade aquilo que dizem: às vezes as coisas não acontecem quando queremos, mas sim quando precisamos delas.

O Porto é, sem dúvida nenhuma, a minha cidade. É onde nasci, onde cresci e para onde sempre voltei de cada vez que fui para fora. E a Câmara desta minha cidade acreditou no meu projeto e quis divulgá-lo aqui, no portal de notícias do Porto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sara vai ao Porto Canal

Ontem, ao final da tarde, estreei-me na televisão. E não havia um canal mais adequado para esse momento do que o Porto Canal.
Passei o dia inteiro com uma ansiedade a esganar-me, a tentar desenvolver respostas para possíveis perguntas, a controlar o cabelo ao espelho (também é importante não estar num bad hair day), a imaginar os piores cenários possíveis (ou não fosse eu) e a concentrar-me no trabalho para acalmar um pouco os nervos.
Ao final da tarde entrei no edifício azul e fui logo muito bem recebida pela super bem disposta produtora do programa Territórios. Depois da maquilhagem que, detesto confessar, fez maravilhas por mim e durante cujo processo descobri uma nova técnica de aplicar rímel, fiz uma visita guiada pelas instalações - outra estreia.
Momentos antes de entrar, enquanto tentava descontrair e concentrar-me em tropeçar, cair ou dançar, voltei a cruza-me com o Júlio Magalhães, que já encontrara uma vez antes no lançamento de um livro, desta vez num contacto um pouco mais personalizado.
Ao contrário daquilo que temi, não só soube responder ao básico como ainda desenvolvi um pouco cada um dos temas que me foi questionado. Podia ter corrido melhor, há sempre alguma coisa, ou várias, que podem/devem ser corrigidas, mas o profissionalismo e a simpatia da apresentadora ajudaram e talvez tenham mesmo conseguido disfarçar as minhas falhas.
Não vi a entrevista, nem sequer ouvi mais do que alguns segundos, mas em geral fiquei bastante satisfeita com o seu desenrolar, mesmo que já me tenha rido bastante à conta dos comentários de quem assistiu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Caixinha de música

Dormir não foi uma tarefa fácil nesta última noite. A ideia era descansar, para acordar tranquila e pronta para o dia de hoje. No entanto, estive bastante tempo às voltas na cama, a tentar estruturar, mudamente, frases coerentes, mas com a cabeça a fugir constantemente para pensamentos paralelos e divergentes.
A determinada altura não conseguia parar de constatar a imprevisibilidade do mundo, dos dias, quão rapidamente os acontecimentos mudam e algo de novo e diferente aparece.
Às vezes sinto que estou ainda numa das minhas divagações que me permitia sonhar, porque sabia que nunca iriam ser reais. Outras penso que se calhar deveria estar um bocadinho mais nervosa do que o que estou e, então, depressa passo para um estado de ansiedade que me fere, mesmo, a garganta.
O meu mundo está a mudar e eu não sei se estou a mudar com ele, mas sinto-me como uma bailarina numa caixa de música, apoiada sobre um só pé e a girar sobre sim mesmo, enquanto a melodia se prolongar, a ver tudo acontecer a uma velocidade estonteante.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Escritadoria

Toda a vida contei histórias. A minha irmã sabe, foi a minha primeira ouvinte, quando me inclinava sobre a cama dela ou a puxava para a minha, à noite, já tarde, na loucura das 21 ou 22 horas em dias de colégio, e lhe contava as aventuras da Tolinha e do Tolinho. Ainda os imagino exatamente como os imaginava há vinte anos atrás.
Quando aprendi a ler e a escrever passei a pôr no papel todas as ideias que tinha. A maioria eram histórias lamecho-românticas sem grande conteúdo, com elementos de suspense óbvio e só não lhes chapava fragmentos informativos da wikipedia porque, bem, na altura ela ainda não existia.
Tenho cadernos escritos até meio, recheados de personagens e de vidas que, provavelmente, poderiam ainda hoje originar uma macedónia interessante. Ando sempre com um mínimo de duas canetas na carteira e uma folha, de preferência um caderno, para escrever. Às vezes o telemóvel tem de servir.
Surgiram os blogs e achei que colmatariam a falta que me fazia não ter um público para quem escrever e que me desse o seufeedback, porque é para isso que serve a (minha) escrita: comunicar, estabelecer um contacto único com quem me lê.
No entanto, o meu ponto forte é a escrita e peco pela falta de esforço na divulgação dos meus textos.
Foi então que, num momento de epifania reveladora, percebi exatamente aquilo que me faltava: um grupo de escrita e de leitura dos escritos. Foi exatamente isso que procurei e foi exatamente isso que não encontrei.
Desta vez, porém, não baixei os braços e se aquilo que eu queria, de que eu precisava não existia, então tinha de ser eu a criá-lo. Atirei a ideia ao ar, na verdade expu-la no facebook, que é o meu grande aliado nesta jornada, e vi, com uma enorme surpresa e satisfação, que não estava sozinha nesta ideia louca de reunir estranhos com as suas histórias tão diferentes, apenas com o intuito de escrever e de partilhar as suas escritas.
Num cantinho do Costa Coffee da Baixa do Porto, ao sabor de uma chávena de café e de, claro, três Creamy Cooler de framboesa e chocolate branco, quatro meninas fizeram nascer a Escritadoria - a nossa fábrica de histórias.
Estamos a dar os primeiros passos e, por isso mesmo, os piquinhos no nariz intensificam-se ao ver um dos meus sonhos materializar-se entre as minhas mãos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Destino

Tanta coisa que nos ficou por fazer, tantos momentos que deixámos por viver, tantos sítios aonde não chegámos a ir juntos, tantos planos que não serão cumpridos.
Lembro-me de uma manhã, deitada nos teus braços, quando estudaste o espaço necessário em tua casa para as minhas coisas, e tive a certeza errada de que um dia era lá que iria viver, contigo, com o que é meu, o que é teu e o que seria nosso.
Imaginei os nossos filhos, a cor dos olhos deles, o formato do cabelo, o sentido de humor e a altura. Não seriam muito altos, sabes? Mas seriam bonitos. Seriam perfeitos e far-nos-iam felizes, numa casa grande cheia de crianças, que cresceriam e trariam os amigos para jantar ou passar a tarde e para quem eu cozinharia e tu passarias a ferro.
Adaptei-me ao teu espaço, às tuas pessoas, aos teus hábitos e tu adaptaste-te a mim. Aprendemos e quisemos continuar a treinar esta dança que é vivermos juntos, fazermos planos, idealizarmos seja o que for.
Houve um momento em que tivemos o mundo aos nossos pés. Demos as mãos e pisámo-lo, porque podíamos dominá-lo: estávamos juntos, conseguíamos ser invencíveis. E tudo se conjugava para que fôssemos bem-sucedidos naquilo que nos cumpríamos a fazer.
Encaixamos um no outro como se eu te pertencesse a ti e tu a mim. Como se tivéssemos sido postos neste mundo para nos conhecermos, para nos complementarmos e para nos fazermos felizes.
Mas o mundo arrependeu-se, separou-nos, afastou-nos e atirou-nos para destinos separados.
Agora resta-me aprender a viver sem uma parte de mim e com a certeza que muitos não têm de que já encontrei a minha alma-gémea.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Bom dia

Há um mundo lá fora, há. Um gorgolejar suspirado de uma cidade borbulhante, mergulhada no seu próprio torpor da meia noite. Ou da uma da manhã...
Cá dentro apenas se ouve o respirar eletrónico de um computador a implorar pelo merecido descanso, após um dia de trabalho mais longo do que o habitual.
Vai dormir, pede-lhe. Deixa-me em paz.
Só mais uma música, só mais um texto, só mais um parágrafo, só mais uma conversa.
Com as pernas enfiadas debaixo dos lençóis, os braços desnudos e as costas apoiadas numa pilha de almofadas mal montada, prolonga a atividade, a inebriação de uma vida que começa, ainda que a meio. Ou talvez fosse mesmo no princípio e até agora tenha vivido o prólogo.
Solta o cabelo, prende-o novamente. Abre uma nova janela, escreve o endereço de um site, lê-o, fecha-o, pisca os olhos.
Come uma sobremesa, bebe um pouco de leite frio e pensa que tem ainda de lavar os dentes. E de dormir, para amanhã acordar cedo e cumprir os objetivos laborais traçados.
Foi um banal dia bom... um dia bom banal... Foi um dia banal e bom, que pretende prolongar enquanto os olhos sobreviverem à luta com a dormência provocada pelo acumular de demasiadas horas de vigília.
Combate um pouco mais, até que desiste de esfregá-los e de, a custo, os reabrir.
É deixá-lo ir, dar-lhe espaço, e voltar a acordar para mais um dia banal. Para mais um dia bom.