A campainha tocou e o pátio, iluminado pelos holofotes, encheu-se. Era de
manhã, mas o sol, preguiçoso, deixara-se ficar no aconchego da mãe-noite.
Janeiro chegara poucos dias antes, sem chuva, mas com frio e tristeza, porém,
essa manhã prometia aguaceiros. Era já tempo de o ano chorar as saudades do seu
antecessor, que acabava de partir, sereno.
Olhando para o céu branco que se tornava cinzento, ao mesmo tempo que a
música One Last Breath se fazia
ouvir, sobrepondo-se às conversas e gargalhadas, viu a chuva começar a cair
sobre o seu cabelo, o seu rosto e o seu corpo pouco agasalhado, e lembrou-se
dos seus anos de aluna naquela escola.
Havia já poucas caras conhecidas, contudo, o ambiente e os hábitos mantinham-se, como o
testemunho passado de geração em geração. Sozinha, debaixo da chuva nervosa,
quatro anos depois, lembrou-se dos tempos sem aulas que ali passara sempre com
as mesmas companhias, que agora já lá não estavam. Com poucos anos de
diferença, todos andavam na faculdade.
Não eram saudades aquilo que sentia: apenas a força da consciência de
que, três anos ali passados podiam ter acontecido de forma diferente. Postada
precisamente no local habitual - um ponto estratégico, em frente ao banco para
onde sempre olhava -, o seu peito foi dominado por um conjunto de sensações que
há muito não experimentava. Por vezes, mesmo sabendo que os seus olhos não pousariam
nele, não se cansava de procurar, na esperança de, no mínimo, poder
contemplá-lo.
Conhecera-o no segundo ano naquela escola e, pouco a pouco, foi
deixando, inconscientemente, que passasse de colega de turma ao sentido da sua
existência. O Cupido dos homens vivos e mortais, que não pertencia a ninguém
certo. Sem normas e, de certo modo, imprevisível, apoderou-se das pupilas dos
olhos dela, do coração dela e, acima de tudo, da consciência dela. Ela, a
encarnação da Psyché, embora numa réplica mais simplista, passou a sonhar, em
vez de viver.
Assumida perante todos, menos perante ele, a paixão foi sobrevivendo às
negações, às inexistências e às impossibilidades. O carácter inalcançável era,
então, concedido por todas as Vénus— Beleza e Entrega—, que se apaixonavam pela
personificação do Amor. Todas aquelas que, nem que fosse por uns momentos para
logo o desprezar, o tinham por inteiro. Todas aquelas que, sem sombra de
dúvida, não sabiam o que era o amor por ele. E ela, sabendo que ele conhecia
aquela sua devoção, embora não em toda a sua supremacia, aguardava, com e sem
esperança, um passo na direcção de qualquer coisa; um passo que, durante seis
anos, se tinha deixado ficar por sublimes provocações, sorrisos tímidos
comprometedores ou brincadeiras sem aparente significado.
Submetida a diversas provações como vê-lo escapar-se para, no momento em
que a capacidade de esquecimento surgia no fundo do seu ser feminino, voltar a
aproximar-se tão... condenantemente, não conseguia, fosse de
que modo fosse, permitir que a impossibilidade matasse esse amor.
— Só quero ouvir sim ou não. A diferença é que não ouço nada. Apenas
recebo uns anda cá! e logo depois, afasta-te, pertenço a outra. Nada mais!
— Tens de perguntar-lhe tu: Sim ou não?. Nunca lhe pediste resposta
nenhuma. Ou então...— era a maioria das respostas— não perguntes. Age!
O grande medo dela sempre tinha sido arriscar-se a ouvir uma negação face
a qualquer coisa que tivesse feito. Era como se, ao guardar para si tudo o que
sentia, esperando por ele, fosse mais aceitável a recusa.
Aquela insegura Psyché abandonada viveu dois anos completos com a ciência
de que se aquele que não era, de modo algum, o ideal para si, era o absoluto
dos seus desejos. E foi com essa perspetiva que terminou o secundário e entrou
no mundo universitário, afastando-se de toda e qualquer referência à escola
secundária, com excepção das suas cinco ninfas. Afastando-se dos bancos, do
refeitório, das salas de aulas, dos colegas de turma e da sua obsessão nefasta.
Sabia que ele, Pedro, deveria ter entrado numa faculdade privada,
provavelmente de Direito, mas pouco mais soube durante quase quatro anos.
Raramente Francisca conseguia começar uma conversa com ele, talvez devido à
vida social atarefada que ele levava sempre, ou talvez devido ao desprezo que
insistia em oferecer-lhe. Não foi, todavia, por isso que Francisca se deixou
abater ou tornar-se infeliz. Sabia, sim, que uma parte de si não estava
completa e que não havia Mercúrio nenhum que conseguisse preenchê-la. Essa
parte de si, com nome, mas sem subsistência, ficara numa vida passada: na etapa
pré-universitária, quando aprendera a auto conhecer-se.
Nesse momento particular, com a chuva a dançar ao sabor da música, todas
as memórias vieram ao seu pensamento e, uma vez mais, tal como acontecia
frequentemente, a imagem de Pedro surgiu mesmo à sua frente. Fechou os olhos.
Não podia continuar agarrada ao passado. Tinha vinte e um anos. Não era mais a
mesma rapariguinha de dezasseis anos que sorria ante a presença daquele que
mais queria.
Ou seria?
Abriu os olhos, ouvindo as últimas notas da guitarra. Sorriu timidamente
ao imaginar como estariam a interpretar os seus movimentos, se é que alguém lhe
prestava atenção e, com as fotocópias de que precisava já guardadas na mochila,
saiu debaixo da chuva e dirigiu-se à saída da escola. Com muita certeza, não
voltaria a entrar ali tão cedo.
Ao mesmo tempo que pisava o chão de pedra sujo do último degrau, sentiu o
seu cabelo encaracolar um pouco mais e aumentar de comprimento; teve a sensação
de ficar poucos centímetros mais baixa; a sua mini-saia transformou-se num par
de jeans claros e as camisolas numa t-shirt escura e um casaco de malha com
um blusão pequeno, por cima. Algures, por debaixo do arco-íris, de universitária
passou a adolescente e foi como se os quatro últimos anos nunca tivessem
passado por ela. À sua frente, igual ao que sempre fora, Pedro estacara ao
vê-la. Mesmo sem ter falado com ele, sabia, pela expressão dos seus olhos e
pela forma como os seus lábios se uniam quando fechava a boca, que continuava o
mesmo. Nada mudara nele.
Esta Psyché, agora com frio devido à inadequação das suas roupas, tremia
de cima a baixo. Em contrapartida, aquele Cupido, o deus do amor, transpirava a
calma habitual, a familiaridade com todas as situações com que pudesse
deparar-se. Olhou-o sob todas as dimensões e acabou por descansar os olhos nos
dele. Deu-se conta de que ambos sorriam.
— Olha ela!— exclamou ele, naquela voz inconfundível, que exprimia mais
do que a maioria dos ouvintes conseguia detectar.
— Olha tu...— respondeu ela, numa voz sorridente, ainda abalada pela
surpresa.— Tudo bem?— À partida, sabia que era um mero acaso, um encontro-
infeliz, talvez?- que acabaria numa questão de segundos e que, como habitualmente,
seria varrido do pensamento dele ainda antes de ela ter dito adeus. Ela, pelo
contrário, ficaria a pensar durante dias e, se calhar, meses, no que poderia
ter acontecido nessa tarde chuvosa, à porta da antiga escola. Não seria a
primeira vez.
— Estava bem— respondeu ele. Ao ver a expressão dela carregar-se,
continuou:— Mas agora que te vi, estou melhor!— O sorriso da pequena Psyché,
que se sentia diminuída na presença tão imponente da divindade que amava,
rasgou-se sem que ela se apercebesse disso.— Que vieste fazer? Não te tenho
visto por aqui...
— Ah... pois... não costumo vir. Já não vinha cá há uns anos...
— Bem me parecia — o à-vontade dele contrastava com a timidez crescente
dela. — Venho cá às vezes à sexta para estar com o pessoal. Como nunca te
encontrei...
Francisca não tinha nada contra a escola. Aliás, tinha adorado os anos em
que lá passara, por ter sido a fase em que se tornou mulher. Mas temia entrar
ali e reviver mentalmente cada momento, cada sensação, boa e má, que lá vivera
realmente. Tal como tinha acabado de acontecer. Só não esperava que na primeira
vez que lá fosse, apenas para arranjar umas fotocópias de uns testes de Latim,
tudo se tornasse tão real.
— Hum... vim só mesmo buscar umas coisas...
Pedro sentou-se no chão, o que permitiu a Francisca observá-lo, sem que
ele se desse conta. Fumava descontraído. «Será que nada mudou, mesmo? Afinal,
passou algum tempo...», questionou-se ela. Mesmo quando estava rodeado de
pessoas, Pedro fumava a olhar para lado nenhum em especial; para algum lugar
bem longe que só ele conhecia.
— Tens pressa?— perguntou ele, olhando para ela e, logo de seguida, para
o mesmo ponto que focava absortamente.
— Não propriamente. Vou almoçar só daqui a umas horas e, para já, não
está ninguém em...
— Que tal fazeres-me aqui um bocadinho de companhia?— interrompeu ele.
Sem responder, Francisca sentou-se ao lado dele, em silêncio. Como
sempre, à espera de que ele falasse.
Cupido e Psyché. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão afastados. Unidos pelo
amor, afastados pela indiferença.
Francisca tinha a capacidade que algumas semi-deusas apaixonadas como ela
não tinham, que era a de conversar com o seu ser supremo. Mantinha uma conversa
estável com ele, apenas receando desinteressar-lhe ainda mais. Contudo, dessa
vez o desenrolar da conversa foi ainda mais natural, possivelmente devido à
fortificação da distância e da separação, erguida pelos anos que haviam
passado. Durante duas horas, para além do relatório do que se passara até
àquela hora, desde o último dia em que se tinham visto, falaram tudo o que não
tinham falado anteriormente. De superficial e cómico, o diálogo entre os dois
passou a sentimental. Apenas os sentimentos opostos que os uniam ficaram de
parte.
«Que mais podes tu pedir, para além de alguém que, durante seis anos
resistiu a todas as provocações, repudiou todas e quaisquer declarações, porque
não pensava senão em ti?», pensava ela à saída do portão da escola, depois de
se terem despedido. «Aconteça o que acontecer, faças o que fizeres, nunca vais
encontrar ninguém que te ame como eu. Nem parecido!»
Uma vez mais, a revolta e a angústia de perder aquilo que deveria ser seu
sobrepuseram-se a qualquer outro sentimento.
Muito suave, mas firmemente, a sua mão foi agarrada por uma outra, que só
uma vez tinha tocado a sua. O seu coração continuava a bater, sem que ela
soubesse como nem porquê. Tinha a sensação de estar vazia, de não ser nada mais
do que um ser físico, com coração. Parada no passeio, muito lentamente virou-se
para trás e olhou-o, a sorrir. Ambos sorriam.
Um beijo suave e sincero há muito esperado; durante tantos anos guardado.
Sem palavras nem explicações, o gesto simbólico não carecia de nada mais.
Apenas de Francisca e de Pedro e do que ambos tinham para dar.
Pedro e Francisca. Cupido e Psyché. Finalmente juntos; finalmente no
Olimpo Luminoso...