terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sapatos vermelhos

Vestida, quase pronta para sair de casa, os pés apenas protegidos pelo fino tecido dos collants pretos estavam em contacto quase direto com o frio do soalho. A medo, como se fizesse algo proibido, abriu silenciosamente a porta que dava para uma pequena arrecadação revestida de prateleiras. Sabia exatamente onde estava aquilo que queria: empoleirou-se na maçaneta de uma das gavetas de baixo e esticou-se, de forma a alcançar a caixa branca de letras pretas. Há quanto tempo a teria enfiado ali, protegida de todos os olhares, protegida do passar do tempo?
Retirou-a cuidadosamente, receosa de a abrir à toa. De pernas cruzadas no chão, levantou, numa demorada cerimónia de regresso ao passado, a tampa, revelando um par de sapatos vermelhos. Pegou num deles, sentindo o cheiro do verniz e de sapatos novos, usados apenas uma vez.
Calçara-os de manhãzinha, ainda com as calças de ganga e a t-shirt branca vestidas e, não obstante, dançara com eles a noite toda, ignorando as dores que os 12 centímetros de salto lhe provocavam, subindo dos pés para os joelhos. Haviam sido a última coisa que retirara, já com o vestido pendurado num cabide forrado de cetim, o cabelo liberto dos ganchos e a maquilhagem limpa do rosto. Ficara assim, nua, só com a aliança no dedo e os sapatos vermelhos calçados, em frente à janela para a madrugada ainda escura, a prolongar a felicidade daquele dia único, como que a memorizá-lo para sempre.
Tinham-se passado quatro anos desde esse dia. A aliança que, entretanto, saíra do dedo, estava agora dentro de uma caixa de madeira à espera de um novo destino, incapaz de se deixar cair no esquecimento. Os sapatos saíam, finalmente, de dentro da caixa de cartão branco, no fundo da qual jazia uma fotografia sua de costas, sem roupa, com os sapatos calçados e a mão esquerda caída ao longo do corpo, iluminada pelo brilho da aliança dourada.
Fora ele que registara aquele momento sem que ela disso se apercebesse. Abraçara-a, então, por trás, sentara-a na beira da cama e descalçara-lhe os sapatos que guardara dentro daquela mesma caixa.
E ali tinham ficado, à espera do momento adequado, de um outro dia que fosse igualmente digno deles.
Lembrava-se, ainda, do perfume dele, do toque do cabelo dele, do timbre da voz dele. Ou, talvez, não se lembrasse assim tão bem quanto acreditava e o tempo e o cérebro, numa colaboração espontânea, se tivessem encarregado de recriar essas memórias, polindo-as ao sabor da sua vontade.
Sem pensar demasiado naquilo que estava prestes a fazer, calçou os sapatos e saiu de casa, mostrando-os novamente ao mundo, desta vez não cobertos por um vestido comprido. Pelo contrário, estavam totalmente expostos, longe do tecido da saia acima do joelho.
Era um dia banal, como qualquer outro que o tivesse precedido ou que se lhe seguisse. De cada vez que esse pensamento lhe ocorria, olhava para baixo e o verniz sorria-lhe, acompanhando-a a cada passo e contagiando-a com a alegria colorida do vermelho.

No final do dia, alheia ao cansaço que a fora consumindo, ligou a aparelhagem e, no chão preto da cozinha, dançou sozinha com os sapatos vermelhos e a saia cinzenta a rodopiar, como quando era criança. E feliz.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

♥ segunda feira



I still believe in your eyes
I just don't care what you've done in your life
Baby I'll always be here by your side
Don't leave me waiting too long, please come by

I still believe in your eyes
There is no choice, I belong to your life
Because I will live to love you someday
You'll be my baby and we'll fly away

sábado, 24 de outubro de 2015

Boa sorte e até um dia

Ao fim de todos aqueles anos, viu as paredes despidas, tal como no dia em que as vira pela primeira vez, um pouco mais sujas, cativeiros de memórias e de histórias irrecuperáveis pelo andar dos dias. O quadro em tons de vermelho e preto que correra meio mundo para adquirir estava já embalado, a caminho do seu novo destino: um armazém nos arredores da cidade, suspenso no tempo até que lhe fosse indicado um novo rumo.
Rodou sobre si mesmo, inspirando o odor característico daquele hall onde tantas pessoas se haviam cruzado, onde o verniz já baço dos tacos revelava incomensuráveis passagens de sapatos. Tinha lágrimas de nostalgia, apreensão e excitação prontas para saltar, assim que lhes desse ordem. Em vez disso, apertou o cachecol aconchegado ao pescoço, fechou o blusão castanho de pele, soltou um suspiro e arrastou as duas malas cheias pela porta em direção ao carro.
Lá fora chovia sobre um dia cinzento, pelo que o movimento na rua era escasso. Engoliu o nó que se lhe formava na garganta e colocou as mãos no volante daquele carro dos anos 60, herdado do avô, que o guiava para qualquer lado desde os seus vinte anos. Aquele dia chegara mesmo.
Tinha começado a pensar nele um ano antes - quando ainda faltava tanto que a ideia era um pouco abstrata demais para poder ser realmente concretizada. Falara dela a dois amigos numa esplanada por cima do rio, acompanhado de um chá fresco num final de verão. Fora aí que começara a tornar-se - mais ou menos - real.
Pensara na decisão todos os dias, mentalizando-se de que não havia volta a dar. Não porque, de facto, não houvesse, mas porque não queria que houvesse. Precisava daquela mudança para que o ar voltasse a passar puro pelos pulmões, para que as noites voltassem a ser de sono, para que os fantasmas não continuassem a atormentá-lo a cada momento, impiedosos e gozões.
E aqui estava ele, naquele domingo triste, tendo apenas por companhia a sua vida toda enfiada no porta-bagagens.
Não o sabia, mas estava pronto, apesar do receio do desconhecido.
Ligou o carro, meteu a primeira e arrancou, muito devagar, ao contrário do que era habitual.
Os pneus deslizaram lentamente pelos paralelos escorregadios, deixando para trás o conforto que sempre conhecera, as pessoas que o tinham acompanhado desde o início e o projeto que iniciara no começo da sua vida adulta, quando o seu cabelo era, ainda, todo da mesma cor, para abraçar um novo projeto não totalmente delineado.
Meteu a segunda e acelerou, dirigindo-se para auto-estrada.
De janelas abertas até meio, a 160 km/h, com o rádio ligado numa qualquer música abafada pelo som do vento, soltou uma gargalhada vinda não se sabe de onde, mas que não conseguiu controlar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mente-me

Se pudesse, escolhia a mentira. Sempre, enquanto aquela continuasse a ser a verdade que a atormentava, que lhe rasgava cada músculo, cada tendão, cada pedacinho de pele.
Cada pergunta que lhe dirigia fazia-se acompanhar de um olhar brilhante de esperança por uma nova verdade utópica. Aquela que não vinha. Não hoje. Talvez amanhã.
E quando a realidade lhe chegava brutalmente em forma de resposta, arrependia-se de não ter verbalizado o pedido:
- Por favor mente-me.
Mas ele não mentia. Na verdade, recordava-lhe, dia após dia, mesmo sem as perguntas súplices dela, uma realidade oposta àquela em que, desesperada por alguma paz de espírito, fazia por acreditar.
Passava um dia, passavam dois, passavam três e, a custo, a realidade opcional entranhava-se, materializava-se dentro e diante dela e tornava-se real. Até ao momento em que, por alguma razão, voltava a ouvi-lo pronunciar um qualquer nome alternativo ao daquela outra mulher cuja imagem esbatida era o suficiente para lhe provocar náuseas.
- Por favor mente-me - suplicava ela, todas as noites, com a cabeça pousada na almofada e os braços cruzados sobre si mesma, sabendo que ele não a ouviria. Mas esperando que, de alguma forma, ele lhe adivinhasse o pedido. E lho concedesse.

Quando o telefone toca

Quando o telefone toca e do outro lado há alguém que te quer falar, senta-te confortavelmente, encosta-te a algo fofo e ouve. Porque houve alguém, num mundo cheio de gente, de tempos e de contratempos, de tarefas, de sono e de procrastinação, que quis, sabe-se lá porquê, ouvir a tua voz e deixar-te ouvir a sua enquanto partilha, durante breves ou longos minutos, uma parte da sua vida que, provavelmente, nunca tinhas ouvido.
Pode ter ligado para cinco outras pessoas antes - que importa, se foste tu que atendeste, se é contigo que estará a criar laços e a estabelecer uma ligação mais forte a cada conversa?
Presta atenção ao que tem para te dizer e recorda os detalhes porque, mais tarde, verás que é essa uma das bases da vossa relação, seja ela qual for, seja ela de que tipo for.
Ri-te, então, se tiveres vontade, pede para repetir se não tiveres percebido bem e mantém-se em silêncio se quiseres ouvir a sua voz, memorizar o seu timbre e conhecer o seu tipo de vocabulário. Não tens de falar sempre, mas não te retraias: é bom poderes deixar alguém entrar, sobretudo quando esse alguém te oferece esse privilégio sem teres tido de o pedir.
Deixa-te ir e atende o telefone quando ele tocar, responde às perguntas sem a familiar sensação de invasão, faz perguntas sem medo das respostas, não penses demasiado, não tentes interpretar cada palavra, cada expressão e cada tonalidade. Ouve, interioriza e dialoga, apenas, como se estivesses a dançar descontroladamente ao som da música de que mais gostas, sem regras, sem público, porque podes. Porque deves. Porque te deves. E ao teu interlocutor também.
Quando o telefone toca, sorri. E quando o desligares, sorri também. Aquele momento que começou e acabou por meio de um aparelho que um dia alguém inventou para facilitar a comunicação prática, terá sido mais relevante na tua vida do que o que alguma vez imaginaste, ter-te-á possibilitado uma aproximação que podes ter tentado - se calhar em vão - evitar.
Deixa-te ir... e atende o telefone.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Insónia

Dentro de mim, um baque assustou-me para a noite ainda escura e fria. Cega, procurei o telemóvel para ver as horas: 4h12.
Virei-me para a esquerda, de frente para a parede, fechei os olhos e... nada. A cabeça pesava-me, os pensamentos rodopiavam numa catadupa tão desenfreada que não me permitia descortinar um só. Pensava em tudo, em nada e em tudo outra vez.
Tentei focar-me numa cascata - sabia que se o fizesse, conseguiria voltar a adormecer.
Aparentemente resultou, pois cerca de uma hora mais tarde voltei a acordar da mesma forma abrupta, numa preocupação assolapante que me fazia latejar a cabeça.
Rodei sobre mim uma vez mais, encontrei a cascata da minha imaginação, mas não surtiu o efeito desejado. Virei-me para o teto, com as mãos sobre o colo, procurei pensamentos tranquilos, mas o meu coração galopava com tanta força que quase doía.
Sentei-me com uma sensação de pânico assim que a imagem desfocada dos dois abraçados surgiu diante de mim. Abri e fechei os olhos várias vezes, querendo afastá-la o mais rapidamente possível, mas continuou presa a mim, tão imponente quanto um reclame luminoso numa rua apagada.
Fui à cozinha buscar um copo com água, mais para sentir o contraste do frio da casa com o calor quase exagerado da minha cama. Dei um pequeno golo que não me satisfez e voltei a deitar-me, coberta até às orelhas, desesperada por conseguir mais umas horas de sono.
Distingui os traços nítidos do sorriso dele dirigido a ela, numa mancha disforme feita por colagens do pouco que fui vendo dela. Vi-o abraçá-la, pousar-lhe um beijo na cara enquanto ela lhe contava algo que o fazia rir. 
Não quis ver mais nada, não quis seguir nem mais um segundo da noite dele longe de mim, mas o meu pensamento traidor fugiu-me e fluiu pelos caminhos que foi escolhendo, dono de si, consciente de que estava a faltar-me ao respeito.
Vencida pelo cansaço, enfiei-me debaixo de um chuveiro quente que deixei que me massajasse as costas durante longos minutos. Os meus olhos picavam, a cabeça continuava a latejar e aquela sucessão de imagens insuportáveis continuava a pairar diante de mim, numa espécie de trailer de tormento.
Não era por passar por aquela angústia do sono quase todas as noites que me habituava a viver com o peso de um cérebro que nunca desliga e de um coração que clama por misericórdia. Os meus dias eram quase ininterruptos, entrecortados apenas por ténues pausas incapazes de colmatar a minha exaustão.
Talvez estivesse na altura de dormir uma noite inteira e acordar com forças para fazer parte do mundo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Regressar a/de Lisboa

Lisboa era a cidade onde gostaria de ter frequentado a faculdade, onde passei os meus verões com os meus primos e para onde, mais tarde, tive de deslocar-me para reencontrar os meus amigos migrantes. Hoje continua a ser uma cidade à qual não conheço os cantos, por onde me perco – o que não é assim tão difícil, para falar a verdade – e onde me sinto, de certa forma, em casa.
Já lá não ia desde agosto, no meu final em grande das férias, pelo que não podia recusar o convite de lá voltar, especialmente na companhia do meu Lado lunar. A ideia era apenas levar o livro até às mãos dos meus lisboetas, mas fui convidada para me juntar à apresentação de um outro livro (Laços de luar e outras histórias, de Teresa Brinco de Oliveira), com quem partilhei a biblioteca da peculiar Casa do Alentejo.
Aproveitei para almoçar n’A Lota, para beber uma cidra no Topo do Martim Moniz e jantar no Can the Can, quase beber um copo no Cais do Sodré, rever família e amigos, voltar ao Castelo de São Jorge onde passava as tardes a dar cambalhotas quando era criança, subir e descer ruas, fugir à chuva e à maratona, almoçar no Honorato e, claro, trazer de sobremesa um pão de deus da Padaria Portuguesa.
Há qualquer coisa naquela cidade. Talvez a luminosidade, talvez o calor que sinto quando lá chego, talvez o céu que, mesmo chuvoso, parece desenhado ao pormenor e pintado com tanto cuidado quanto aquele com que se faz uma obra de arte.
Vir embora é sempre, sem exceção, a parte complicada. Desta vez foi deixar para trás um fim-de-semana de sonho e, com ele, os meus lisboetas; e foi chegar ao culminar de mais uma etapa de um projeto.
Ainda que voltar ao Porto seja ótimo, sem dúvida, despedir-me de Lisboa enche-me de uma melancolia dicotómica que quase que dói.

♥ segunda feira





If you can't meet me in the middle
Maybe we can compromise a little
Cause our love is worth it all
It's bigger than the little things we fight
For you I'll give up all the lives that don't lift us

We're falling back in love
Here we are again
Now you're singing my song
And I'm singing your song

Falling back in love
And we're both moving
To the beat that goes like this

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Quando o mundo para

Havia, já, folhas caídas, queimadas pelo sol e levantadas erroneamente pelo vento, atiradas de cá para lá, pisadas pelos sapatos despreocupados dos adultos e pelos saltos propositados e divertidos das crianças. Não havia dúvida de que mais um verão chegara ao fim. Mais um ciclo começara e acabara e, uma vez mais, nada evoluíra.
Era um homem novo - um miúdo, como muitos lhe chamavam carinhosamente, numa crítica mal disfarçada para o chamarem para a vida - com um enorme potencial para ser muito, mas que, na verdade, era muito pouco. Sabia que não se dava a demasiados esforços para alcançar aquilo que sabia que queria, mas ia fazendo alguma coisa e, ainda assim, não chegava a lado nenhum.
Continuava a saltar de trabalho precário em trabalho precário, a apaixonar-se perdidamente por sucessivas mulheres erradas e a acumular dívidas que não sabia se alguma vez iria conseguir pagar.
Naquela manhã sentira um sufoco que, infelizmente, já se ia tornando familiar, ao constatar, novamente, que tudo à sua volta era um caos errante, deambulando de acordo com os seus passos, inseparável de si. Incontrolável.
Todos tinham sorte, todos alcançavam alguma coisa, todos tinham algo a que se agarrar para recomeçar a cada dia... Porque não podia ser mais um de todos?
Necessitado de uma golfada de ar puro, desceu até à praia que, naquele dia de semana, se encontrava quase deserta. O sol brilhava com mais intensidade do que previra, para sua agradável surpresa, pelo que tirou a camisola que atirou para cima do ombro, descalçou os sapatos e caminhou pela areia seca.
Escalou o monte de rochas que se acumulava à sua frente e sentou-se numa enorme pedra negra, abrigado dos olhares alheios, com a serenidade do mar aos seus pés.
Cheirava a maresia e a humidade salgada abraçava-o. O vento quente fazia chegar-lhe leves esboços de sons que não conseguia reconhecer. Ali em cima, abrigado do mundo e erguido acima dele numa tranquilidade inigualável, convenceu-se de que era dono de si e daquilo que o rodeava: podia ser quem quisesse, o que quisesse, quando o quisesse ser.
Mesmo que, no final da hora de almoço, tivesse de voltar à realidade. Todos os dias.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

♥ segunda feira



And every night has its day, so magical
And if there's love in this life, there's no obstacle
That can't be defeated

If there's love in this life we're unstoppable
No we can't be defeated

domingo, 11 de outubro de 2015

Despertar

Convidaste-me para jantar.
O meu coração disparou, senti o sangue aflorar-me às bochechas e a voz prendeu-se-me na garganta, incapaz de sair coerentemente, por entre golfadas de sons incompreensíveis que ficavam a pairar entre nós.
Franziste a testa, intrigado com a minha falta de resposta.
- Que se passa?
Insegura das minhas palavras, respondi-te:
- Já tenho outros planos...
- Quais? - perguntaste.
- Vou jantar...
- Com quem?
Desviei os meus olhos dos teus e respondi-te:
- Com o Vítor...
Deste um passo atrás, com a testa ainda mais franzida, e disseste-me:
- Não acho isso correto.
- Porquê? - perguntei eu, visivelmente perturbada pela incoerência da nossa relação.
Mas o teu sorriso rasgado, sabendo da novidade que me ias dar, completamente consciente da felicidade que as tuas palavras me iam fazer sentir, respondeste:
- Porque estamos juntos...
Antes de poder retribuir-te o sorriso, acordei com o ritmo do coração acelerado. Por dois breves segundos, questionei-me se teria sido uma recordação. E sorri.
Não estavas ali. Não tinha sido uma recordação.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Silêncio

Sentados num degrau a meio das escadas que dão acesso ao teu jardim das traseiras, vemos a luz do dia fugir paulatinamente de mais uma noite que se aproxima. Está frio, mas cheira bem: há uma mistura de terra e folhas molhadas com os aromas dos diversos jantares preparados nas casas vizinhas que se confundem à nossa volta.
As nossas mãos estão entrelaçadas: passo um dedo em movimentos circulares pelos nós dos teus, sentindo a suavidade da tua pele por debaixo da minha.
Fecho os olhos quando os teus lábios se passeiam pelo meu pescoço e pelos meus ombros, para apreciar este momento, evitando os pensamentos que se espalham para todo o lado, fugindo ao meu controlo. Não sabes, mas de cada vez que estou contigo agradeço em silêncio o facto de a vez anterior não ter sido a última. Sinto-me feliz ao teu lado, presa a ti por um nó mudo de qualquer coisa que não pedi.
Colocas um braço à volta da minha cintura, abro os olhos e observo-te diretamente. A tua testa, o teu nariz, os teus olhos, a tua boca e novamente os teus olhos. Sorrio. Estás aqui e eu também.
- O que foi esse sorriso? - perguntas-me.
Sorrio mais, mas fechando a boca, numa tentativa mal conseguida de o conter, e abano levemente a cabeça:
- Não foi nada. - A voz sai-me num guincho, como se fosse uma menina pequenina apanhada a fazer uma asneira.
Gosto de ti, mas não to posso dizer, não é? Não o dirás de volta e isso só iria desfazer a felicidade imensurável que sinto neste momento em que olhas para mim e eu te sinto meu, ainda que apenas por umas breves horas fugazes.
É a ti que quero... e a mais ninguém.
Beijo-te a bochecha, pouso a cabeça no teu braço e assim fico, de olhos fechados a inspirar o teu perfume, até deixares novamente de ser meu.

Bom dia

"Bom dia! Espero que tenhas dormido bem. Um beijo muito grande."

Sorriu, ainda acabrunhada pelo sono de que acabara de despertar, com o telemóvel meio caído entre os dedos e a almofada. Havia algo de especial numa mensagem de bons dias... Alguém algures no mundo, entre tanta gente, tantos afazeres, tanta corrida contra o relógio, se lembrara de si logo de manhã e tirara dois minutos para a fazer saber disso.
E queria que tivesse um bom dia.
Não reconhecia o número, era verdade. Tinha o péssimo hábito de não registar os números que os amigos lhe indicavam, costumando tentar decorar os cinco primeiros dígitos apenas, para os reconhecer quando lhe ligavam. De resto, era uma confusão.
Enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo frio, reuniu mentalmente as várias hipóteses. Em boa verdade, enumerou as pessoas que gostaria que lhe tivessem mandado uma mensagem de bons dias: a amiga com quem não falava há bastante tempo e de quem sentia umas saudades enormes; o irmão que emigrara, reduzindo, assim, o contacto diário que habitualmente mantinham; o amigo que, numa determinada altura da vida, a habituara às suas mensagens matinais bem dispostas, que acabara por largar com o tempo. No entanto, de qualquer um deles, conhecia o número de cor, muito para além dos cinco primeiros dígitos.
Sorriu intensamente ao passar com a toalha pelo cabelo molhado: havia, claro, o homem que trabalhava na empresa ao lado da sua, com quem metera conversa atabalhoadamente e que a intrigava todos os dias um bocadinho mais. Todos os dias passavam sete minutos, nem mais nem menos, de manhã, e nove minutos, nem mais nem menos, de tarde, juntos. Ele para tomar café, ela para fazer o enorme sacrifício de beber uma chávena de café até meio, antes de despejar o conteúdo sobejante no lavatório.
Aqueles dezasseis minutos diários, que se prolongavam há já quatro ou cinco meses, eram a razão porque começava cada dia com um entusiasmo maior em relação à véspera, motivada pelo enorme prazer que é conhecer e dar-se a conhecer a alguém novo.
E ele, aquele homem de cabelos negros e voz forte, pensara nela de manhã.

Respondeu-lhe, evitando a quantidade exagerada de smiles sorridentes que seria necessária para lhe transmitir a sua felicidade:
 "Bom dia! Dormi bem, mas acordei melhor ainda. Já nos vemos!"

Escovou os dentes, passando vigorosamente a escova pela língua - o sabor da pasta sempre ajudava a atenuar o amargo do café -, aplicou um pouco de batom e de perfume e saiu de casa, saltitando ao som de uma canção que se ouvia apenas dentro da sua cabeça.
Bom dia... Realmente, tudo corre melhor quando alguém deseja que o nosso dia seja bom.

O telefone voltou a tocar, avisando a chegada de uma mensagem. Sorrindo, abriu-a:
"Peço desculpa, foi engano."

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Regresso à escola

No domingo, ao fim de 10 anos (dez!) voltei à escola em que passei os três anos de secundário a sentir-me uma outsider (talvez seja mesmo essa a minha condição geral). Nunca mais lá voltei a entrar, ainda que estivesse curiosa para saber como tinha ficado depois das obras, mas os horários não mo tinham permitido e, honestamente falando, a vontade não era demasiado forte para isso.
Até que chegaram as eleições, a escola esteve aberta no fim de semana e voltei a entrar, desta vez pela porta da frente, aquela que estava vedada aos alunos, que tinham de entrar pela estreitíssima porta lateral.
Não perscrutei a escola toda. Na verdade, passeei por uma pequena parte, apenas, mas o suficiente para ver que aquela é, sem dúvida, uma escola do século XXI, com bom aspeto e, arrisco dizer, acolhedora. O corredor de acesso aos edifícios e às salas de aula, totalmente envidraçado, já não deve ficar alagado em dias de chuva, o que permite, também, que haja um bar enorme e colorido lá no meio. Em frente, o recreio com campos de jogos está com as condições necessárias para ser utilizado sem que seja preciso verificar o boletim de vacinas, como medida de prevenção.
Consegui ver uma ou duas salas por dentro, mas apenas as da área de ciências que, embora incluísse uma cuja parede é um aquário, não fazem parte do meu espectro de recordações.
Não fiquei muito nostálgica, não foi como voltar a casa ou a um momento especial do passado. Ainda assim, foi impossível não reparar, logo, que o cantinho junto à máquina de bebidas onde a minha grande paixão dessa altura me deu um beijo na testa, depois de sair aterrorizada de mais uma aula demoníaca com uma bruxa - ali mesmo à saída para a porta lateral, em cujo muro de pedra ele se sentava a fumar - já não é um cantinho resguardado. E a máquina de bebidas desapareceu, com o seu vermelho desbotado de tantos anos de gasto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015