O inverno no Porto pode ser rigoroso e impiedoso. Às sete horas da tarde,
debaixo da chuva fria que cortava o fim de dia escuro, parada no passeio,
protegida apenas pela gabardina que trazia vestida, uma jovem e atraente mulher
chorava desesperadamente. O rímel negro escorria-lhe pelo rosto e o cabelo,
liso e comprido, colava-se à testa, à boca, ao pescoço.
Acabava de sair do meu trabalho e descia a rua, descontraído, embrenhado
nos meus devaneios. Lentamente aproximava-me da mulher e ia-me apercebendo do
estado de espírito dela. A pena tomou conta de mim. A cara da senhora mal se
via, só o sendo possível por breves instantes, e mesmo assim, mal, só quando
ela limpava as lágrimas que se confundiam com as gotas de chuva que batiam como
lanças inimigas afiadas.
Com a curiosidade estampada no rosto, aproximei-me da infeliz chorosa e
toquei-lhe no ombro. Ela não se virou; foi como se não me tivesse sentido.
O dia oferecia tristeza a todos o que nele caminhavam, mas as lágrimas
eram o limite máximo de expressão dessa mágoa.
À frente dela estava um aglomerado de mirones que rodeava um corpo de
homem estendido nos paralelepípedos da estrada.
Por instantes, ela destapou o rosto para responder a uma das pessoas que
ligava para o 112, e pude ver a cara borratada dela, reconhecendo-a:
— Lara!— chamei com a minha voz grossa que ecoou na rua de um modo
inédito, mas ela nem olhou para mim.
Tentei pegar-lhe nas mãos, mas era como se fôssemos dois pólos positivos
que se repeliam mutuamente. Afaguei-lhe os cabelos com o olhar, aqueles cabelos
por que me apaixonara. Uma paixão que nunca fora retribuída, mas que se
conservara em amizade.
Atravessei aquela multidão e, ao ver o rapaz que jazia no chão e cujo
batimento da vida se lhe escapara, entendi a fatalidade da situação.
Estaquei com a respiração entrecortada.
Seria um espelho?
Era real o que via?
— Lara!— voltei a chamar, desesperado.
O movimento atrás de mim intensificou-se. O corpo era erguido numa maca
para dentro da ambulância do INEM
— Lara!
Sem olhar para mim, deu o braço ao médico, entrou no veículo, em direção
ao hospital, e eu não deixei de vê-la, a chorar uma paixão nunca assumida,
tornada impossível por obra da morte.
Chorava por ela e por mim...