segunda-feira, 20 de julho de 2015

Escritadoria

Toda a vida contei histórias. A minha irmã sabe, foi a minha primeira ouvinte, quando me inclinava sobre a cama dela ou a puxava para a minha, à noite, já tarde, na loucura das 21 ou 22 horas em dias de colégio, e lhe contava as aventuras da Tolinha e do Tolinho. Ainda os imagino exatamente como os imaginava há vinte anos atrás.
Quando aprendi a ler e a escrever passei a pôr no papel todas as ideias que tinha. A maioria eram histórias lamecho-românticas sem grande conteúdo, com elementos de suspense óbvio e só não lhes chapava fragmentos informativos da wikipedia porque, bem, na altura ela ainda não existia.
Tenho cadernos escritos até meio, recheados de personagens e de vidas que, provavelmente, poderiam ainda hoje originar uma macedónia interessante. Ando sempre com um mínimo de duas canetas na carteira e uma folha, de preferência um caderno, para escrever. Às vezes o telemóvel tem de servir.
Surgiram os blogs e achei que colmatariam a falta que me fazia não ter um público para quem escrever e que me desse o seufeedback, porque é para isso que serve a (minha) escrita: comunicar, estabelecer um contacto único com quem me lê.
No entanto, o meu ponto forte é a escrita e peco pela falta de esforço na divulgação dos meus textos.
Foi então que, num momento de epifania reveladora, percebi exatamente aquilo que me faltava: um grupo de escrita e de leitura dos escritos. Foi exatamente isso que procurei e foi exatamente isso que não encontrei.
Desta vez, porém, não baixei os braços e se aquilo que eu queria, de que eu precisava não existia, então tinha de ser eu a criá-lo. Atirei a ideia ao ar, na verdade expu-la no facebook, que é o meu grande aliado nesta jornada, e vi, com uma enorme surpresa e satisfação, que não estava sozinha nesta ideia louca de reunir estranhos com as suas histórias tão diferentes, apenas com o intuito de escrever e de partilhar as suas escritas.
Num cantinho do Costa Coffee da Baixa do Porto, ao sabor de uma chávena de café e de, claro, três Creamy Cooler de framboesa e chocolate branco, quatro meninas fizeram nascer a Escritadoria - a nossa fábrica de histórias.
Estamos a dar os primeiros passos e, por isso mesmo, os piquinhos no nariz intensificam-se ao ver um dos meus sonhos materializar-se entre as minhas mãos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Destino

Tanta coisa que nos ficou por fazer, tantos momentos que deixámos por viver, tantos sítios aonde não chegámos a ir juntos, tantos planos que não serão cumpridos.
Lembro-me de uma manhã, deitada nos teus braços, quando estudaste o espaço necessário em tua casa para as minhas coisas, e tive a certeza errada de que um dia era lá que iria viver, contigo, com o que é meu, o que é teu e o que seria nosso.
Imaginei os nossos filhos, a cor dos olhos deles, o formato do cabelo, o sentido de humor e a altura. Não seriam muito altos, sabes? Mas seriam bonitos. Seriam perfeitos e far-nos-iam felizes, numa casa grande cheia de crianças, que cresceriam e trariam os amigos para jantar ou passar a tarde e para quem eu cozinharia e tu passarias a ferro.
Adaptei-me ao teu espaço, às tuas pessoas, aos teus hábitos e tu adaptaste-te a mim. Aprendemos e quisemos continuar a treinar esta dança que é vivermos juntos, fazermos planos, idealizarmos seja o que for.
Houve um momento em que tivemos o mundo aos nossos pés. Demos as mãos e pisámo-lo, porque podíamos dominá-lo: estávamos juntos, conseguíamos ser invencíveis. E tudo se conjugava para que fôssemos bem-sucedidos naquilo que nos cumpríamos a fazer.
Encaixamos um no outro como se eu te pertencesse a ti e tu a mim. Como se tivéssemos sido postos neste mundo para nos conhecermos, para nos complementarmos e para nos fazermos felizes.
Mas o mundo arrependeu-se, separou-nos, afastou-nos e atirou-nos para destinos separados.
Agora resta-me aprender a viver sem uma parte de mim e com a certeza que muitos não têm de que já encontrei a minha alma-gémea.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Bom dia

Há um mundo lá fora, há. Um gorgolejar suspirado de uma cidade borbulhante, mergulhada no seu próprio torpor da meia noite. Ou da uma da manhã...
Cá dentro apenas se ouve o respirar eletrónico de um computador a implorar pelo merecido descanso, após um dia de trabalho mais longo do que o habitual.
Vai dormir, pede-lhe. Deixa-me em paz.
Só mais uma música, só mais um texto, só mais um parágrafo, só mais uma conversa.
Com as pernas enfiadas debaixo dos lençóis, os braços desnudos e as costas apoiadas numa pilha de almofadas mal montada, prolonga a atividade, a inebriação de uma vida que começa, ainda que a meio. Ou talvez fosse mesmo no princípio e até agora tenha vivido o prólogo.
Solta o cabelo, prende-o novamente. Abre uma nova janela, escreve o endereço de um site, lê-o, fecha-o, pisca os olhos.
Come uma sobremesa, bebe um pouco de leite frio e pensa que tem ainda de lavar os dentes. E de dormir, para amanhã acordar cedo e cumprir os objetivos laborais traçados.
Foi um banal dia bom... um dia bom banal... Foi um dia banal e bom, que pretende prolongar enquanto os olhos sobreviverem à luta com a dormência provocada pelo acumular de demasiadas horas de vigília.
Combate um pouco mais, até que desiste de esfregá-los e de, a custo, os reabrir.
É deixá-lo ir, dar-lhe espaço, e voltar a acordar para mais um dia banal. Para mais um dia bom.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Beco sem saída


O inverno no Porto pode ser rigoroso e impiedoso. Às sete horas da tarde, debaixo da chuva fria que cortava o fim de dia escuro, parada no passeio, protegida apenas pela gabardina que trazia vestida, uma jovem e atraente mulher chorava desesperadamente. O rímel negro escorria-lhe pelo rosto e o cabelo, liso e comprido, colava-se à testa, à boca, ao pescoço.
Acabava de sair do meu trabalho e descia a rua, descontraído, embrenhado nos meus devaneios. Lentamente aproximava-me da mulher e ia-me apercebendo do estado de espírito dela. A pena tomou conta de mim. A cara da senhora mal se via, só o sendo possível por breves instantes, e mesmo assim, mal, só quando ela limpava as lágrimas que se confundiam com as gotas de chuva que batiam como lanças inimigas afiadas.
Com a curiosidade estampada no rosto, aproximei-me da infeliz chorosa e toquei-lhe no ombro. Ela não se virou; foi como se não me tivesse sentido.
O dia oferecia tristeza a todos o que nele caminhavam, mas as lágrimas eram o limite máximo de expressão dessa mágoa.
À frente dela estava um aglomerado de mirones que rodeava um corpo de homem estendido nos paralelepípedos da estrada.
Por instantes, ela destapou o rosto para responder a uma das pessoas que ligava para o 112, e pude ver a cara borratada dela, reconhecendo-a:
— Lara!— chamei com a minha voz grossa que ecoou na rua de um modo inédito, mas ela nem olhou para mim.
Tentei pegar-lhe nas mãos, mas era como se fôssemos dois pólos positivos que se repeliam mutuamente. Afaguei-lhe os cabelos com o olhar, aqueles cabelos por que me apaixonara. Uma paixão que nunca fora retribuída, mas que se conservara em amizade.
Atravessei aquela multidão e, ao ver o rapaz que jazia no chão e cujo batimento da vida se lhe escapara, entendi a fatalidade da situação.
Estaquei com a respiração entrecortada.
Seria um espelho?
Era real o que via?
— Lara!— voltei a chamar, desesperado.
O movimento atrás de mim intensificou-se. O corpo era erguido numa maca para dentro da ambulância do INEM
— Lara!
Sem olhar para mim, deu o braço ao médico, entrou no veículo, em direção ao hospital, e eu não deixei de vê-la, a chorar uma paixão nunca assumida, tornada impossível por obra da morte.

Chorava por ela e por mim...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A dor de sorrir

Pegar no momento e guardá-lo não necessariamente para sempre, mas, pelo menos, até cansar. Até não ser mais do que uma ténue sensação daquilo que foi, do que aconteceu, do que extrapolou através dos poros de uma pele coberta por roupas de inverno.
Não o moldar, não o pintar, não o proteger com vidro ou plástico. Guardá-lo, simplesmente. Pousá-lo em cima da lareira, no parapeito da janela exposta à rua, na mesinha de cabeceira vagamente iluminada, e contemplá-lo todos os dias até que a saudade dê lugar à habituação, a um encolher de ombros indiferente de dias mais felizes, de outros momentos igualmente marcantes que substituam aquele já gasto, em tempos tão inebriante.
Olhá-lo, memorizá-lo, reconhecer-lhe cada pequeno traço, cada som. Saber de cor a música que tocava, reproduzir sem apoio todas as tonalidades exteriores e interiores, sentir-lhe a amargura e a doçura. Agarrá-lo até doer e deixá-lo, por fim, escapar. Vê-lo, ao longe, a perder-se nas cinzas do passado e ser capaz de não correr atrás dele, de não o chorar, de não lhe sentir a perda dolorosa.
Deixar os dias passar, saborear-lhes o vagar, atrasar-lhes a pressa, porque o que veio e o que chegou em breve será mais um chão pisado na estrada imensa de uma vida.
Conseguir, por entre lágrimas, sorrir. Rir, se possível. Cantar baixo, alto, gritar o que sair. Estender uma mão para trás, outra para a frente, mas deixar os pés presos no agora que sustenta cada segundo batido para lá do vidro do relógio de pêndulo e os olhos saltitantes para nada perderem das horas irrequietas.
Preservar o sorriso de criança inocente - feliz com a simplicidade -, maturado pela aprendizagem da dureza e das conquistas. Um sorriso de dentes tratados, preservado no mundo, crescido ao seu próprio ritmo. Mantê-lo com o orgulho nunca ferido, porque o único sorriso no meio de lágrimas não está numa posição de submissão nem de vergonha, mas assume o papel do poderoso, capaz de vislumbrar para lá da névoa e de se manter irredutível quando o mais fácil é esconder-se, adotar a outra face e juntar-se à multidão. Um sorriso de contágio que mal só faz a quem o desdiz, a quem o vê sem conseguir reconstituí-lo.

E distribuí-lo gratuitamente.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Concílio dos deuses

A campainha tocou e o pátio, iluminado pelos holofotes, encheu-se. Era de manhã, mas o sol, preguiçoso, deixara-se ficar no aconchego da mãe-noite. Janeiro chegara poucos dias antes, sem chuva, mas com frio e tristeza, porém, essa manhã prometia aguaceiros. Era já tempo de o ano chorar as saudades do seu antecessor, que acabava de partir, sereno.
Olhando para o céu branco que se tornava cinzento, ao mesmo tempo que a música One Last Breath se fazia ouvir, sobrepondo-se às conversas e gargalhadas, viu a chuva começar a cair sobre o seu cabelo, o seu rosto e o seu corpo pouco agasalhado, e lembrou-se dos seus anos de aluna naquela escola.
Havia já poucas caras conhecidas, contudo, o ambiente e os hábitos mantinham-se, como o testemunho passado de geração em geração. Sozinha, debaixo da chuva nervosa, quatro anos depois, lembrou-se dos tempos sem aulas que ali passara sempre com as mesmas companhias, que agora já lá não estavam. Com poucos anos de diferença, todos andavam na faculdade.
Não eram saudades aquilo que sentia: apenas a força da consciência de que, três anos ali passados podiam ter acontecido de forma diferente. Postada precisamente no local habitual - um ponto estratégico, em frente ao banco para onde sempre olhava -, o seu peito foi dominado por um conjunto de sensações que há muito não experimentava. Por vezes, mesmo sabendo que os seus olhos não pousariam nele, não se cansava de procurar, na esperança de, no mínimo, poder contemplá-lo.
Conhecera-o no segundo ano naquela escola e, pouco a pouco, foi deixando, inconscientemente, que passasse de colega de turma ao sentido da sua existência. O Cupido dos homens vivos e mortais, que não pertencia a ninguém certo. Sem normas e, de certo modo, imprevisível, apoderou-se das pupilas dos olhos dela, do coração dela e, acima de tudo, da consciência dela. Ela, a encarnação da Psyché, embora numa réplica mais simplista, passou a sonhar, em vez de viver.
Assumida perante todos, menos perante ele, a paixão foi sobrevivendo às negações, às inexistências e às impossibilidades. O carácter inalcançável era, então, concedido por todas as Vénus— Beleza e Entrega—, que se apaixonavam pela personificação do Amor. Todas aquelas que, nem que fosse por uns momentos para logo o desprezar, o tinham por inteiro. Todas aquelas que, sem sombra de dúvida, não sabiam o que era o amor por ele. E ela, sabendo que ele conhecia aquela sua devoção, embora não em toda a sua supremacia, aguardava, com e sem esperança, um passo na direcção de qualquer coisa; um passo que, durante seis anos, se tinha deixado ficar por sublimes provocações, sorrisos tímidos comprometedores ou brincadeiras sem aparente significado.
Submetida a diversas provações como vê-lo escapar-se para, no momento em que a capacidade de esquecimento surgia no fundo do seu ser feminino, voltar a aproximar-se tão... condenantemente, não conseguia, fosse de que modo fosse, permitir que a impossibilidade matasse esse amor.
— Só quero ouvir sim ou não. A diferença é que não ouço nada. Apenas recebo uns anda cá! e logo depois, afasta-te, pertenço a outra. Nada mais!
— Tens de perguntar-lhe tu: Sim ou não?. Nunca lhe pediste resposta nenhuma. Ou então...— era a maioria das respostas— não perguntes. Age!
O grande medo dela sempre tinha sido arriscar-se a ouvir uma negação face a qualquer coisa que tivesse feito. Era como se, ao guardar para si tudo o que sentia, esperando por ele, fosse mais aceitável a recusa.
Aquela insegura Psyché abandonada viveu dois anos completos com a ciência de que se aquele que não era, de modo algum, o ideal para si, era o absoluto dos seus desejos. E foi com essa perspetiva que terminou o secundário e entrou no mundo universitário, afastando-se de toda e qualquer referência à escola secundária, com excepção das suas cinco ninfas. Afastando-se dos bancos, do refeitório, das salas de aulas, dos colegas de turma e da sua obsessão nefasta.
Sabia que ele, Pedro, deveria ter entrado numa faculdade privada, provavelmente de Direito, mas pouco mais soube durante quase quatro anos. Raramente Francisca conseguia começar uma conversa com ele, talvez devido à vida social atarefada que ele levava sempre, ou talvez devido ao desprezo que insistia em oferecer-lhe. Não foi, todavia, por isso que Francisca se deixou abater ou tornar-se infeliz. Sabia, sim, que uma parte de si não estava completa e que não havia Mercúrio nenhum que conseguisse preenchê-la. Essa parte de si, com nome, mas sem subsistência, ficara numa vida passada: na etapa pré-universitária, quando aprendera a auto conhecer-se.
Nesse momento particular, com a chuva a dançar ao sabor da música, todas as memórias vieram ao seu pensamento e, uma vez mais, tal como acontecia frequentemente, a imagem de Pedro surgiu mesmo à sua frente. Fechou os olhos. Não podia continuar agarrada ao passado. Tinha vinte e um anos. Não era mais a mesma rapariguinha de dezasseis anos que sorria ante a presença daquele que mais queria.
Ou seria?
Abriu os olhos, ouvindo as últimas notas da guitarra. Sorriu timidamente ao imaginar como estariam a interpretar os seus movimentos, se é que alguém lhe prestava atenção e, com as fotocópias de que precisava já guardadas na mochila, saiu debaixo da chuva e dirigiu-se à saída da escola. Com muita certeza, não voltaria a entrar ali tão cedo.
Ao mesmo tempo que pisava o chão de pedra sujo do último degrau, sentiu o seu cabelo encaracolar um pouco mais e aumentar de comprimento; teve a sensação de ficar poucos centímetros mais baixa; a sua mini-saia transformou-se num par de jeans claros e as camisolas numa t-shirt escura e um casaco de malha com um blusão pequeno, por cima. Algures, por debaixo do arco-íris, de universitária passou a adolescente e foi como se os quatro últimos anos nunca tivessem passado por ela. À sua frente, igual ao que sempre fora, Pedro estacara ao vê-la. Mesmo sem ter falado com ele, sabia, pela expressão dos seus olhos e pela forma como os seus lábios se uniam quando fechava a boca, que continuava o mesmo. Nada mudara nele.
Esta Psyché, agora com frio devido à inadequação das suas roupas, tremia de cima a baixo. Em contrapartida, aquele Cupido, o deus do amor, transpirava a calma habitual, a familiaridade com todas as situações com que pudesse deparar-se. Olhou-o sob todas as dimensões e acabou por descansar os olhos nos dele. Deu-se conta de que ambos sorriam.
— Olha ela!— exclamou ele, naquela voz inconfundível, que exprimia mais do que a maioria dos ouvintes conseguia detectar.
— Olha tu...— respondeu ela, numa voz sorridente, ainda abalada pela surpresa.— Tudo bem?— À partida, sabia que era um mero acaso, um encontro- infeliz, talvez?- que acabaria numa questão de segundos e que, como habitualmente, seria varrido do pensamento dele ainda antes de ela ter dito adeus. Ela, pelo contrário, ficaria a pensar durante dias e, se calhar, meses, no que poderia ter acontecido nessa tarde chuvosa, à porta da antiga escola. Não seria a primeira vez.
— Estava bem— respondeu ele. Ao ver a expressão dela carregar-se, continuou:— Mas agora que te vi, estou melhor!— O sorriso da pequena Psyché, que se sentia diminuída na presença tão imponente da divindade que amava, rasgou-se sem que ela se apercebesse disso.— Que vieste fazer? Não te tenho visto por aqui...
— Ah... pois... não costumo vir. Já não vinha cá há uns anos...
— Bem me parecia — o à-vontade dele contrastava com a timidez crescente dela. — Venho cá às vezes à sexta para estar com o pessoal. Como nunca te encontrei...
Francisca não tinha nada contra a escola. Aliás, tinha adorado os anos em que lá passara, por ter sido a fase em que se tornou mulher. Mas temia entrar ali e reviver mentalmente cada momento, cada sensação, boa e má, que lá vivera realmente. Tal como tinha acabado de acontecer. Só não esperava que na primeira vez que lá fosse, apenas para arranjar umas fotocópias de uns testes de Latim, tudo se tornasse tão real.
— Hum... vim só mesmo buscar umas coisas...
Pedro sentou-se no chão, o que permitiu a Francisca observá-lo, sem que ele se desse conta. Fumava descontraído. «Será que nada mudou, mesmo? Afinal, passou algum tempo...», questionou-se ela. Mesmo quando estava rodeado de pessoas, Pedro fumava a olhar para lado nenhum em especial; para algum lugar bem longe que só ele conhecia.
— Tens pressa?— perguntou ele, olhando para ela e, logo de seguida, para o mesmo ponto que focava absortamente.
— Não propriamente. Vou almoçar só daqui a umas horas e, para já, não está ninguém em...
— Que tal fazeres-me aqui um bocadinho de companhia?— interrompeu ele.
Sem responder, Francisca sentou-se ao lado dele, em silêncio. Como sempre, à espera de que ele falasse.
Cupido e Psyché. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão afastados. Unidos pelo amor, afastados pela indiferença.
Francisca tinha a capacidade que algumas semi-deusas apaixonadas como ela não tinham, que era a de conversar com o seu ser supremo. Mantinha uma conversa estável com ele, apenas receando desinteressar-lhe ainda mais. Contudo, dessa vez o desenrolar da conversa foi ainda mais natural, possivelmente devido à fortificação da distância e da separação, erguida pelos anos que haviam passado. Durante duas horas, para além do relatório do que se passara até àquela hora, desde o último dia em que se tinham visto, falaram tudo o que não tinham falado anteriormente. De superficial e cómico, o diálogo entre os dois passou a sentimental. Apenas os sentimentos opostos que os uniam ficaram de parte.
«Que mais podes tu pedir, para além de alguém que, durante seis anos resistiu a todas as provocações, repudiou todas e quaisquer declarações, porque não pensava senão em ti?», pensava ela à saída do portão da escola, depois de se terem despedido. «Aconteça o que acontecer, faças o que fizeres, nunca vais encontrar ninguém que te ame como eu. Nem parecido!»
Uma vez mais, a revolta e a angústia de perder aquilo que deveria ser seu sobrepuseram-se a qualquer outro sentimento.
Muito suave, mas firmemente, a sua mão foi agarrada por uma outra, que só uma vez tinha tocado a sua. O seu coração continuava a bater, sem que ela soubesse como nem porquê. Tinha a sensação de estar vazia, de não ser nada mais do que um ser físico, com coração. Parada no passeio, muito lentamente virou-se para trás e olhou-o, a sorrir. Ambos sorriam.
Um beijo suave e sincero há muito esperado; durante tantos anos guardado. Sem palavras nem explicações, o gesto simbólico não carecia de nada mais. Apenas de Francisca e de Pedro e do que ambos tinham para dar.
Pedro e Francisca. Cupido e Psyché. Finalmente juntos; finalmente no Olimpo Luminoso...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fizeram-te fraca


- Eles fizeram-te fraca, porque o que te torna forte não é compararem-te com outros e constatarem que és menos, não é não te porem obstáculos no caminho porque sabem que não vais conseguir ultrapassá-los nem é, perante cada derrota, fecharem os olhos e abanarem a cabeça com desdém, porque verem-te estatelada no chão não representa nenhuma novidade. Fizeram-te fraca com cada não e com cada sim mal colocados. Fizeram-te fraca quando te levaram ao colo, porque partiram do pressuposto que não saberias andar por ti mesma, ainda que tenham dedicado meses a fio a ensinarem-te essa arte. Fizeram-te fraca quando colocaram uma redoma a separar-te do mundo, cheia de ideias fixas coladas nas suas paredes. Fizeram-te fraca quando te fecharam os olhos àquilo que não sabiam ou não queriam ter de explicar e quando, por conseguinte, te deixaram ignorante face à realidade do mundo. Fizeram-te fraca quando categorizaram os teus amigos por classes sociais, por apelido ou por nível de q.i., alheando-se da pessoa que cada um deles era. Fizeram-te fraca quando te confinaram à tua casa, à tua família e a um círculo de gente extremamente limitado. Fizeram-te fraca quando não expandiram as conversas à multiplicidade de vida que há no mundo e quando te ordenaram que escolhesses ignorá-las. Fizeram-te fraca quando perfuraram cada pedaço da tua pele com ideias erradas, movidas pelo preconceito pelo qual se guiavam. Fizeram-te fraca quando fingiram que não crescias. Fizeram-te fraca quando te viam à imagem esborratada da pessoa perfeita que queriam que fosses. Fizeram-te fraca quando tentaram cortar-te as pernas quando perceberam que, afinal, não só sabias andar, como também conseguias correr. Fizeram-te fraca quando taparam a tua boca com fita-cola e esperaram que as palavras não saíssem, assim, da tua cabeça. Fizeram-te fraca quando te cuspiram insultos mascarados que se colaram em ti, por dentro e por fora, com toda a sua força. Fizeram-te fraca quando te algemaram, em vez de te estenderem a mão. Fizeram-te fraca quando te viraram costas no momento em que perceberam que não eras tão fraca como tinham planeado. Fizeram-te fraca, sim, mas cresceste mais forte do que muitos, com toda a força que te foi impedida de usares todo este tempo. Toda essa fraqueza se dissipou no momento em que uma pequena frincha se abriu na parede da redoma e espreitaste para a realidade. Foi nesse momento que viste um espelho de ti, pequena e assustada, mas forte, dona de uma enorme capacidade para amar, para compreender, para aceitar e para tentar. Fizeram-te fraca, mas apenas porque a tua força interior foi sempre suficientemente poderosa para conseguires soltar todas as amarras que te lançassem e para dares ao mundo uma grande parte de ti.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

R.

Tendemos a esquecer-nos de quem nos fez bem. Por alguma razão traiçoeira, a vida traz com ela o tempo e, juntos, varrem-nos memórias de que nunca deveríamos ser privados. Talvez mais tarde, muitos anos de vazio depois, haja qualquer coisa à nossa frente que nos desvenda as lembranças, que nos faz pensar que um dia, algures, estive com uma das melhores pessoas que já conheci. Não sei dela, não sei quem é, agora, o que faz nem sequer onde estará, mas um dia fez parte de mim.
Eu guardo comigo, ao meu lado e dentro de mim, a melhor pessoa que conheci, aquela que mais preencheu a minha vida quando eu era criança. O luto da memória aliou-se à escassez de fotografias, impedindo-me de recordar o seu rosto, os seus traços, o seu cabelo. Não me lembro de tudo, mas lembro-me de tudo.
Tenho comigo a magia que incutiu à minha História desde cedo, com aquelas músicas de crianças que me ensinou. Deitadas na sua cama, no canto do seu quarto pequeno, eu brincava com uma carteira vermelha de rede, enquanto ela me ensinava tudo o que sabia. Sei, ainda agora, que soube mais do que deveria ter sabido. Deveria ter tido muito mais tempo para aprender tudo o que queria, para ser a boa pessoa que era, para ser filha, irmã, sobrinha, prima e, eventualmente, mãe. Tenho a certeza de que daria uma ótima mãe, com paciência de sobra e imaginação imparável.
O seu coração estragou-se, mas nunca deixou de ser bom. Cansou-a, levou-a para longe e, logo a seguir, quando a boa notícia cá chegou, levou-a para ainda mais longe.
Desde então procuro fotografias dela, gravei o nome dela no meu coração e escrevi-lhe todos os dias durante anos as histórias que lhe contaria se ainda a tivesse comigo.
Deixei de lhe escrever quando percebi a inutilidade desse gesto: ela não queria saber dos meus desamores infantis, nem das conversas sem sentido que tinha com os meus amigos. Ela queria ser deixada em paz, com o seu coração nas mãos que, embora estragado, ainda bate por cada um de nós que lhe entrou pela vida adentro.
Sinto os olhos dela em mim, sinto o calor dos seus braços e o aconchego das suas canções ecoa-me nos ouvidos constantemente.
Ela tinha o nome mais bonito, a cara mais bonita, o cabelo mais bonito e a alma mais pura que tive a sorte de poder conhecer. Comia laranjas como eu como iogurtes ou, provavelmente, mais ainda.
Agora não preciso de falar com ela para saber que me ouve, que sabe o que sinto e tudo o que lhe quero dizer, mas só isso não chega. Faltam-me as fotografias para confirmar se é verdade o que dizem e que somos parecidas; faltam-me os cheiros, faltam-me as músicas e as histórias.
Ela faz-me falta, muito mais do que alguma vez teria podido imaginar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"No man is an island"

Ninguém é sozinho... No man is an island.
Por mais que nos isolemos, por mais anti-sociais que nos consideremos e que façamos por ser, nunca estamos nem somos um só. Há sempre alguém que escolhemos ou que nos escolhe a nós, a quem nos prendemos para sempre. Um pai, um amigo ou um namorado, capaz de chamar à atenção para a asneira que cometemos, ou para apoiar numa aventura corajosa.
Podemos fugir, fechar a casa à chave e apagar a luz, mas aquela pessoa, a nossa pessoa, sabe o limite temporal da espera e sabe quando intervir para nos estender a mão, ou obrigar a sair do poço.
Ser a pessoa de alguém não passa só por trocar umas mensagens e beber uns copos entre gargalhadas. Sendo muito mais do que só isso, envolve conseguir pôr o eu de lado para ouvir os lamentos, os devaneios e as ambições, perceber quando fechar e quando abrir os olhos e a boca e ter uma mão sempre livre.
Mas implica, em último caso, querer que o outro seja, reciprocamente, a nossa pessoa.
Ser a pessoa de alguém é um trabalho a tempo inteiro e um part-time da vida, mas é o mais bem pago de todos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Abre-se a porta encostada

Há não muito tempo guardava um diário onde escrevia todos ou quase todos os dias. Agora guardo-o, mas não o escrevo: leio-o, quando me apetece lembrar de como era, do que fazia e de como via o meu mundo. 
Agora tenho sempre comigo uma folha e uma caneta onde imortalizo o que sinto num momento, as imagens que me surgem diante dos olhos, ou o que poderia ser real.
Por que não guardar aqui, num local que o tempo não gasta e que a humidade não estraga, a outra pessoa que posso ser? O outro eu que consigo fazer surgir sem esforço, sem querer, apenas porque tem vontade de vir à superfície.

Bem-vindos nós, que abrimos esta porta pela primeira vez e, prevejo, vamos ser bons amigos. Deixo a chave em cima da mesa, para usarmos sempre que quisermos.